A roupinha velha

As mulheres passam muito pela seguinte situação:

Alguém elogia a roupa que estão usando e, em vez de dizer que é nova, que custou caro, que ficou pensando bastante no que vestir, elas dizem que pegaram a primeira roupinha que viram, que aquilo já é velho e que não é nada demais.

Eu sei que não dá para ser brutalmente sincero em absolutamente tudo.

Mas o exemplo ilustra bem o que acontece também com os pianistas.

Muito pianista famoso adora dizer que não precisou estudar tanto assim para tocar determinada peça. Que deu uma olhadinha rápida na partitura, uma conferida ligeira, e o que saiu foi algo espontâneo, sem muito esforço.

Mentira.

Estudou bastante, sim.

Claro que existem pessoas com um talento fora do comum, que realizam certas coisas mais rápido do que outras. Mas mesmo essas acabam estudando muito para tocar do jeito que a gente escuta num concerto ou numa boa gravação.

Lembro sempre de um documentário sobre o pianista Sviatoslav Richter em que ele dizia que estudava meia hora por dia — e corta para a sua mulher dizendo que eram doze horas.

Não se assuste. Você não precisa disso para tocar bem. Richter foi um titã histórico do piano.

Mas uma coisa é verdade: é preciso regularidade. É preciso um certo tempo todo dia.

Não caia no conto do gênio que não precisou estudar nada. Ele estudou muito e não está querendo revelar — ou está tocando algo que, para ele, é de fato simples. De maneira geral, se está tocando uma peça importante, houve disciplina. Houve tempo no piano. Todos os dias.

Então pare de acreditar que se algo não está saindo é por causa do talento, da idade ou da fase da lua.

Eu tenho a convicção de que o que bloqueia a maioria das pessoas é sentar ao piano e não saber o que fazer. 

Não saber por onde começar, o que repetir, onde colocar a atenção. Sem essa orientação, qualquer disposição para estudar evapora rápido. 

Não por preguiça, mas porque estudar sem direção é um absurdo. 

E a gente acaba se recusando a ficar fazendo coisas absurdas.

Orientar o aluno nesse sentido — para que ele nunca fique perdido diante do instrumento — é um dos objetivos centrais de todos os meus cursos. 

Disciplina é consequência de um sentido claro para se fazer o que se faz.

Se quiser ser orientado de forma que te leve a ser disciplinado porque não te deixa perdido:

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A peça crush

Uma das coisas mais prazerosas que existem no piano é ter uma peça crush.

Sabe o que é isso?

É aquela peça que você ainda não toca, mas que sonha em tocar.

Que você talvez já tenha procurado no YouTube várias vezes só para ouvir de novo, como quem passa na frente da casa de alguém que gosta.

Essa peça faz algo muito importante: ela te dá um destino, um alvo.

Em música, ter o destino é ter o combustível.

Ele é o que faz o estudo deixar de ser uma obrigação árida e passar a ser o caminho para um encontro que você está ansioso para ter. Como quem se prepara durante semanas para um jantar com alguém especial: escolhe o lugar, pensa no que vai dizer, cuida de cada detalhe.

A peça crush funciona assim.

Você estuda porque quer conquistá-la.

Agora, se você ainda não tem uma, se nenhuma peça ocupa esse lugar nos seus sonhos mais íntimos, a primeira tarefa é encontrá-la.

E essa busca, por si só, já vale muito.

Porque quando você sai procurando uma peça que te faça sentir isso, acaba descobrindo o repertório do piano.

E o repertório do piano é grande como um oceano.

O que começa como uma busca por uma peça termina encontrando uma coleção de peças.

Você vai encontrar não um crush, mas quatrocentos e noventa cruches.

Isso é o nosso motor musical.

A locomotiva do estudo não pára quando você tem paixão pelo destino. Ela pára quando o destino some, quando o estudo vira um conjunto de exercícios sem nenhuma peça dos sonhos esperando do outro lado.

Então, se você ainda não tem a sua, é hora de se apaixonar perdidamente.

Se quiser chegar lá com a minha orientação:

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O homem que não se conhecia

Como seria bom se fossemos como a Eva de O Paraíso Perdido.

Ela viu sua imagem em um reflexo à beira de um lago e ficou encantada, maravilhada. Quando encontrou Adão, não achou tudo isso. A imagem dela, convenhamos, tinha sido bem mais simpática.

Mas… não tem tu, vai tu mesmo.

Também não reclamaríamos de ter sido Narciso, que se apaixonou por si mesmo quando se viu, de tão belo que era.

No piano, quando nos ouvimos em gravação, a reação típica é querer soltar uma bomba de fumaça e sumir como um ninja.

Nossa imagem sonora real não costuma nos agradar. Tem tanta coisa errada ali que fica difícil nomear o problema.

Mas não vou dizer que se gravar é condição sine qua non para se tornar um bom pianista, seria uma contradição total. A maioria dos grandes músicos do passado nunca pôde se ouvir porque essa tecnologia não existia. Beethoven, Mozart, Chopin, Bach, nenhum deles apertou o play em si mesmo uma vez sequer.

E ainda assim estão entre os maiores que já existiram.

Certamente a capacidade de entender o que se faz está para além da possibilidade de se testemunhar fazendo. Comparando a música com as palavras, é fácil perceber que entender o significado de uma palavra com profundidade é mais valioso e vai te dar maior poder de comunicação do que se ouvir pronunciando-a sem entendê-la tão bem assim.

Em música é a mesma coisa.

Mas também não dá pra negar que dar uma ouvidinha em como você toca vai te ajudar a corrigir coisas muito valiosas.

Ouvir a si mesmo ao piano é como entrar num provador com espelho de três lados, aquele espelho de alfaiataria que te mostra de frente, de lado e de costas ao mesmo tempo. De repente você está vendo ângulos de si mesmo que nunca existiram antes.

Algumas coisas você resolve sozinho. Percebe que está com a roupa do avesso, que o zíper ficou aberto, que a meia é branca e o sapato é preto — e a não ser que você esteja pronto para um moonwalk e umas piruetas, isso provavelmente não é o visual mais elegante do mundo.

Outros problemas são mais sutis. Algo no caimento não está certo, mas você não sabe dizer se é o corte, a costura ou a sua própria postura.

É aí que o alfaiate entra:

Ele olha para o mesmo espelho e imediatamente sabe o que está vendo, onde ajustar e o que é problema de corte e o que é problema de quem está dentro da roupa.

Esse alfaiate é obviamente o professor.

Eu me gravo constantemente e isso me poupa horas de busca cega ao piano. Você pode comparar a execução de hoje com a da semana passada, ouvir onde a mão direita engoliu uma nota que você tinha certeza que havia tocado. Isso é valioso demais.

A estranheza inicial passa. O que fica é uma das ferramentas mais poderosas que um pianista pode usar.

E que está no seu bolso agora mesmo!

Se você ainda não tem o hábito de se gravar, vale começar para finalmente se conhecer tocando e evoluir muito a partir disso.

Quer dar esse primeiro passo com orientação?

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O pianista e a maquiagem

É impressionante como a nossa impressão de nós mesmos é falha.

No piano isso se reflete de uma maneira muito evidente.

A coisa mais comum que acontece com um iniciante é achar que está tocando com expressividade quando na verdade está tocando igual à voz do Google fazendo uma declaração de amor.

O professor diz que determinado trecho é para ser tocado forte e o aluno pode jurar que está tocando forte o suficiente no momento indicado.

O professor diz que aquela outra parte é bem leve e o aluno acredita que está fazendo leve o suficiente também.

Eu também sempre sofri disso e lembro de uma vez levar uns empurrões nas costas de um professor me indicando para tocar mais forte. 

Foi uma cena muito engraçada. 

Eu havia me separado de uma namorada e estava todo triste e, sabendo disso, enquanto eu tocava, o professor me dava empurrões e proferia “elogios” à moça para ver se a minha ira ajudava a conseguir de fato tocar forte tanto quanto era necessário naquele trecho.

A verdade é que para quem está tocando, o forte e o leve estão bastante aparentes. Mas para quem está de fora — e especialmente para quem está a uma certa distância do instrumento — está tudo soando igual.

Outro grande professor dizia que as diferenças de intensidade para o músico eram igual à maquiagem para o ator.

Se você já foi a uma peça de teatro, ao olhar um ator no palco tem a impressão de que ele não está usando maquiagem nenhuma no rosto, parece estar natural. 

Mas se por acaso tivermos a oportunidade de ver esse mesmo ator de perto, após a peça, vamos notar que ele estava todo maquiado — de maneira até exagerada. Tudo isso para, do palco, passar simplesmente uma imagem de algo vivo.

O aluno de piano precisa desde o início ir se acostumando a fazer o forte e o piano (leve) bem diferentes e até um pouco extremos, para poder aos poucos ir limpando e chegar na medida certa. Mas o melhor é começar com uma generosidade na dose.

Quer começar a aprender já entendendo como a sua música ganha vida de fato?

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O presente que eu nunca recebi

Tenho me deparado com muitos vídeos de crianças identificando notas no segundo em que ouvem. E tem um cantor e compositor americano chamado Charlie Puth que identifica a nota de qualquer barulho aleatório: porta batendo, buzina de carro, o que for.

Isso se chama ouvido absoluto.

É a capacidade de ouvir um som e saber imediatamente o nome da nota, sem precisar de nenhuma referência. 

Da mesma forma que você olha para o céu e sabe que é azul sem comparar com nada, quem tem ouvido absoluto ouve um Dó e simplesmente sabe que é um Dó.

Tenho duas alunas que têm isso. É impressionante de verdade.

Claro que é uma vantagem enorme. Muita gente tenta amenizar dizendo que não tem relação com a sensibilidade musical real da pessoa — e isso é verdade — mas não dá para negar que é um presente e tanto.

Um presente que nós, reles mortais, não recebemos.

O que nos resta?

 Trabalhar o ouvido relativo: a partir de uma nota dada, identifico as outras por saber como soam os intervalos. 

Um truque clássico é associar cada intervalo ao início de uma música conhecida. O hino nacional brasileiro começa com uma quarta justa. Então se quero saber como ela soa, canto mentalmente o hino e a nota aparece na cabeça.

Mas por que estou falando sobre isso?

Porque não é por você não ter uma condição especial que você não pode aprender da mesma forma. 

Seu gosto, sua imaginação, seu discernimento do que vai emocionar quem está te ouvindo, não vem no pacote do ouvido absoluto. E pode ser sempre desenvolvido.

Não deixe que um aparente obstáculo te impeça da riqueza que é tocar piano.

Nunca se esqueça de que o compositor mais marcante do século XX, Igor Stravinsky, não tinha ouvido absoluto.

Se quiser começar agora mesmo, sem depender de nenhuma facilidade que não seja ter um cérebro funcionando e cinco dedos em cada mão:

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Tem uma música na sua cabeça agora?

Músicas grudam na cabeça.

Não todas da mesma forma, mas qualquer pessoa já passou pela experiência de ficar com uma melodia tocando na sua cabeça e perceber que ela simplesmente não vai embora.

Música porcaria tem um poder especial nesse caso. Ela invade a sua cabeça como uma espécie de ladrão. Num ponto em que eu talvez já nem diria que ela ficou gravada na sua memória. Diria que é um caso de possessão demoníaca mesmo.

A minha tática para os casos mais graves é: não tente suprimir. Não funciona. Nada se destrói, é preciso substituir. Melhor ficar cantarolando uma música boa até a outra ir embora. 

Funciona sempre!

Mas às vezes a música que está na cabeça é linda mesmo.

Certa manhã acordei com uma sinfonia de Brahms tocando na cabeça. Fui tomar banho, ela continuava. Li uma notícia, ela continuava. Quando fui fazer o café, percebi que havia passado para o segundo movimento. Ela tinha tocado de forma contínua, sem que eu tivesse feito absolutamente nada para isso.

Isso mostra bem como a nossa cabeça funciona.

Quando você está aprendendo a tocar, o mesmo processo acontece. A cabeça continua trabalhando naquilo que você viu, mesmo longe do piano. Ela vai digerindo, organizando, consolidando — sem que você perceba e sem que precise fazer nada.

O problema é que ela não distingue o que é bom do que é ruim. Ela cristaliza o que foi repetido.

Se a orientação foi correta, o que vai se solidificar será um patrimônio para a vida toda. Se não foi, o que vai se solidificar é um vício — e vício musical é das coisas mais difíceis de desfazer, porque está gravado fundo, automatizado, e parece certo mesmo quando não é.

Se quiser aprender de forma limpa e entender como evitar que vícios se instalem antes mesmo de aparecerem:

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Cinco toneladas e meia

Elefantes de circo pesam em torno de cinco toneladas e meia. Isso mesmo: cinco toneladas e meia!

E ficam parados, presos por uma corrente fininha amarrada numa estaca de madeira fincada no chão.

Isso não faz o menor sentido físico.

Com um movimento de pata, qualquer um desses animais arrancaria a estaca, a corrente e provavelmente levaria a tenda do circo junto.

Mas eles não fazem isso.

Por quê?

Porque quando eram filhotes, essa mesma corrente era suficiente para segurá-los. Tentaram, tentaram, tentaram escapar. Não conseguiram. Machucaram a pata. Aprenderam que era inútil.

E nunca mais esqueceram.

Cresceram. Ficaram enormes. Mas a memória da corrente ficou maior do que a corrente em si.

Você já ouviu a expressão “memória de elefante”, não? Pois parece que eles não se esquecem nunca mesmo. Locais onde foram maltratados, pessoas que os machucaram — fica tudo guardado.

O elefante adulto continua se comportando como se a corrente da infância ainda fosse capaz de segurá-lo.

Mas nós também somos um pouco assim, um pouco elefantes.

Algumas coisas a gente não esquece mais.

Às vezes foi uma experiência real: a aula que não fez sentido, o professor que te deixou sem rumo, a sensação de que todo mundo progredia menos você.

Mas às vezes a corrente nunca chegou a ser testada. Alguém simplesmente te disse como as coisas são e você acreditou.

“Piano é coisa de quem começa criança.” “Você precisa ter talento para isso.” “Depois de certa idade o cérebro já não aprende mais.” “Não tenho jeito para música.”

Não importa de onde veio. A crença ficou. E passou a parecer um fato.

Mas não é.

A dificuldade, na maioria dos casos, estava em um método mal aplicado, na falta de orientação adequada ou em uma crença que alguém plantou cedo demais.

O elefante não era fraco. Era filhote. Estava sujeito a qualquer correntinha.

Depois que cresceu, nunca ninguém chegou perto dele e mostrou que a corrente era fina demais para ele — e que com a orientação certa ela se desfaz.

Uma boa orientação é o empurrão que faz o elefante testar a corrente pela primeira vez de verdade. Alguém que chega perto e diz: tenta. E o elefante tenta. E a estaca sai.

Será que você já testou se essa corrente ainda tem força para te prender?

Se você sente que chegou a hora de experimentar, o caminho começa aqui:

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A biblioteca que nunca li

Tenho no computador uma coleção impressionante de PDFs.

(não vou falar sobre os livros que compro neste post porque estou com vergonha)

Música, filosofia, história, religião, biografias, uns três livros sobre culinária japonesa que não sei bem como foram parar ali e sabe-se lá mais o quê.

Cada um deles foi baixado num momento de entusiasmo total. Eu li o título, li a sinopse, pensei “preciso ler isso” e cliquei em baixar com a satisfação de quem já leu.

Muitas vezes o livro baixado me deu um trabalhão doido para conseguir.

A sensação de baixar um livro é muito boa.

Parece que você já deu o passo e que o conhecimento está ali, ao seu alcance, praticamente seu. A distância entre baixar e ler parece pequena demais para se preocupar com ela agora.

Só que essa distância a gente sabe bem que é um abismo.

No piano acontece a mesma coisa, obviamente.

A pessoa encontra uma peça que a emociona. Salva a partitura. Assiste um vídeo explicando como tocar. Talvez até compre um curso. E sente, honestamente, que começou.

Mas sentar, estudar aquela passagem difícil, repetir lentamente, errar, corrigir, voltar ao começo… isso não tem a mesma sensação boa de baixar o arquivo.

Isso é o livro aberto na página um.

E a maioria das partituras salvas, ou dos cursos iniciados, tem a tendência de não passar desse ponto. Ficam pairando numa espécie de sonho esquecido e postergado.

Falta de consistência é o maior problema que todo mundo enfrenta em qualquer empreendimento na vida.

Mas existem coisas que um professor pode transmitir e que ajudam a ser mais consistente: começando por saber exatamente o que você tem que fazer e não se sentir perdido para continuar algo que começou.

Se você quer aprender a tocar através de um método que te faça passar naturalmente da página um:

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Conquistei a América e fiz uma menina chorar

Na primeira vez na minha vida em que fiz uma viagem internacional, fui para os Estados Unidos, Nova York. 

Eu estava sonhando em estudar ali e queria conhecer as escolas de música da cidade. Cheguei ao hotel, deixei as malas e saí imediatamente para visitar a famosa Juilliard School. 

Eita que chique! 

Cheguei lá e pude entrar na escola sem problemas, fui passando pela segurança como se fosse um estudante dali. 

Minha sensação era que eu não precisaria mais ser aceito na escola, eu a estava invadindo na marra. Dali não sairia.

 Encontrei uma sala de estudo aberta com um piano dentro. 

E o que um turista, que acabou de chegar em uma terra estranha, viajando pela primeira vez para mais longe, tipicamente faz? 

Estuda piano, claro! Óbvio! 

Pois me pus a tocar um pouco. 

Não deu 10 minutos, bateu uma moça na porta e disse que precisaria de pianista para uma prova que iria acontecer imediatamente e perguntou se eu seria capaz de acompanhá-la, disse que me ouviu um pouco do outro lado e que eu soava bem. 

Pronto! “Conquistei a América”, foi o que eu pensei. 

Nem Cristóvão Colombo foi tão eficiente! 

E não levou mais do que 10 minutos. 

Que feito histórico! 

Que gênio mesmo que eu sou! 

Fui com a moça para a sua prova como se fosse um veterano da escola. Confiança máxima. 

Não parei para pensar que eu deveria ler à primeira vista, na frente de um júri, sem prática nenhuma de acompanhar cantores e ler rápido desse jeito. 

Achei que era um chamado divino. 

O chamado não era Dele exatamente. 

Li tudo errado. 

Foi um desastre. 

A menina chorando quando acabou a prova. 

Saí dali e fui para o hotel… e não lembro de mais nada daquele dia. 

Aprendi da pior forma possível o que nenhum professor me havia dito com tanta clareza. 

Demorou anos para conseguir lembrar essa história sem ficar automaticamente deprimido. 

Não se faz algo para o qual não se está preparado ao piano — para não falar em nada na vida. 

Não se ponha a tocar coisas que você não absorveu muito bem. 

Não se ponha em situações de exposição fazendo algo que você não fez inúmeras vezes sozinho e pelo menos algumas vezes diante de pessoas próximas. 

Quer aprender sem colocar o carro na frente dos bois?

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Música verde não dá!

Existe um erro que aparece em 99,93% dos alunos de piano. Do iniciante até o avançado. 

Não importa há quanto tempo está tocando. 

Ele aparece assim: 

A pessoa aprende mais ou menos as notas da peça. 

Entende o ritmo de maneira geral. 

E aí… vruuuummm… sai acelerando tudo. 

Quer tocar no andamento “de verdade”. No andamento do YouTube, do Spotify, da gravação que ela tanto admira. 

E eu entendo. 

Quando você ouve uma música e ela te arrepia, o que você quer é reproduzir exatamente aquilo. Aquela velocidade, aquela fluidez, aquele impacto. A gente não vê a hora de sentir esse resultado saindo de nós mesmos. 

E o pior é que todo mundo já sabe: TEM QUE ESTUDAR DEVAGAR! Mas ninguém se aguenta. 

O problema é que música é igual fruta: 

Não dá pra comer verde, “ripeness is all”. 

E aí fica todo mundo preocupado em conseguir tocar rápido achando que tem algum problema com velocidade de maneira geral ao piano. 

Só que não existe isso. 

Velocidade é a consequência de um hábito repetido lento muitas vezes. 

Sempre o que é para ser tocado rápido é um tipo de padrão repetitivo porque não seria possível tocar rápido algo que é aleatório e não obedece um padrão. 

Portanto, vou aqui insistir mais uma vez: 

O segredo para tocar rápido é tocar lentamente, muito bem, muitas vezes.

Quer aprender de uma forma que a velocidade aparece naturalmente, se você seguir os passos indicados? 

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