Morreu de arrumar a sala
Existe um livro curtinho que me marcou muito e que eu gostaria de usar como tema deste meu email.
“A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói.
Talvez seja um dos livros mais importantes que já li.
É uma verdadeira bomba.
Entre tantas coisas profundas e terríveis que Tolstói mostra na vida do personagem, tem um detalhe do qual eu não me esqueço. A doença que mata Ivan Ilitch começa numa tarde em que ele sobe numa escada para mostrar ao tapeceiro como quer a cortina pendurada no apartamento novo. Escorrega e bate o flanco no puxador da janela.
Ele morre de arrumar a sala.
Passou a vida montando a aparência de uma vida boa e foi a montagem que o matou. No fim, quando procura na memória algum momento em que esteve inteiro, só encontra coisas da infância. Todo o resto ficou guardado para um momento que ele tinha certeza de que ainda ia chegar.
Eu sei que esse é um exemplo extremo e muito dramático.
Mas também tenho certeza de que é mais comum do que se imagina.
O livro faz a gente questionar todo o jeito como vivemos e refletir se estamos de fato vivendo uma vida verdadeira.
Está muito ligado à ideia de não esperar que chegue o momento ideal para fazer o que você sente que precisa fazer para crescer como ser humano. Simplesmente porque na maioria das vezes um momento exatamente assim não chega nunca.
É preciso dar um jeito de dar o passo inicial apesar das circunstâncias.
Um exemplo:
Sei que preciso sair mais de casa e passar mais tempo na natureza. Tenho certeza de que isso seria muito importante para mim.
Penso também (ou sonho) que vai chegar um momento oportuno em que vou ter todas as circunstâncias ajeitadas e aí finalmente vou poder estar na natureza como quem mergulhou em um quadro de Caspar David Friedrich.
É altamente provável que isso nunca aconteça.
Então tomei uma decisão:
Vou para as montanhas aqui na Romênia com a minha esposa por um final de semana.
Não é o que eu idealizei, mas já é alguma coisa.
Por medo daquele destino horrível e cruel que Tolstói descreve, lá vou eu.
Me nego a ser o Ivan Ilitch com todas as minhas forças.
Se o seu sonho, aquilo que você sempre quis que fizesse parte da sua vida, é aprender a tocar piano, o caminho está abaixo:
Do Zero à Pour Elise
Tatuagem no cerebelo
Existe um tipo de coisa que a gente aprende e esquece, e existe outro tipo que a gente aprende e nunca mais perde. Andar de bicicleta e nadar são os exemplos de sempre.
Com as peças de piano acontece algo parecido, por mais que não seja essa a impressão de quem estuda.
Todo mundo já ouviu falar em memória muscular no piano, mas quase ninguém confia nela de verdade.
Esses dias abri uma peça que eu não tocava havia muitos e muitos anos.
Foi uma peça que toquei muito de fato.
Sentei esperando o pior, e nos primeiros minutos foi uma espécie de ônibus sem freio nas ladeiras de São Francisco.
Mas em dois ou três dias de estudo ela estava de volta inteira, com dedilhado, com pedal, com decisões de interpretação que eu tinha tomado décadas atrás e que nem lembrava de ter tomado.
Isso acontece quando a peça já passou tempo suficiente pelo nosso sistema gastro-musical.
Quando uma peça é mastigada semana após semana por alguns bons meses, ela entra na circulação e não sai mais. Fica tatuada no cerebelo.
A impressão que a gente tem geralmente é a oposta.
A gente acha que repertório é coisa volátil: estudou, tocou, esqueceu. Estudou a próxima, perdeu a anterior. Como se fosse preciso cavar tudo de novo, do zero, toda vez.
Às vezes é assim mesmo. Mas não é sempre. Depende do nível de relacionamento íntimo que você teve com a peça e do quanto vocês foram para a “guerra” juntos.
Claro que é preciso estudar de novo. Ninguém senta e sai tocando de primeira. Mas o trabalho que você vai ter se parece muito mais com desentupir um cano do que com abrir um poço novo.
E aqui vem a parte engraçada.
Justamente essas peças, as que você tocou até enjoar, são as que parecem ter perdido a graça. Você olha para uma delas e pensa que não vai emocionar mais ninguém, que já saiu tantas vezes da sua mão que agora sai mecânica, sem vida. Então você escolhe tocar outra coisa, mais nova, que ainda te dá algum frio na barriga.
Mas o enjoo é todo seu. Quem escuta está ouvindo aquilo pela primeira vez e não está envolvido com a sua aventura numa peça nova. A pessoa só quer escutar algo agradável, ou pelo menos convincente.
E tudo que faz parte de nós parece um pouco sem graça.
Isso é assim mesmo.
E é exatamente por isso que essas são as peças que você deve tocar para os outros. Porque já são de fato suas, viraram parte de você.
E, no final das contas, só se divide aquilo que se tem.
Coceira de pianista
Existe uma etapa do estudo que todo mundo fica doido para abreviar.
Parece que dá coceira na mão e a gente quer parar com aquilo.
Estou falando de estudar com as mãos separadas.
Quando o professor disser que algo precisa ser estudado mais com as mãos separadas, o aluno sente como se estivesse sendo rebaixado de marechal pra tenente. Não é assim, claro. Mas é assim que parece.
A vontade de todo mundo é juntar as mãos logo, ouvir a música acontecer, sentir que está chegando em algum lugar. Estudar a mão direita parece um castigo.
Então o aluno junta antes da hora.
Escrevi esses dias sobre uma entrevista com o pianista Shura Cherkassky. Vale voltar agora a essa entrevista.
Ali a jornalista pergunta:
Como você estuda?
E ele responde:
Isso é constrangedor. Eu estudo tão devagar e com as mãos separadas muito tempo. Quem me ouve estudando acha que na verdade eu estou afinando o piano.
Vamos tirar daí a lição de uma vez por todas.
Estudar muito com as mãos separadas e lentamente é o que quem quer colher frutos concretos faz. É gostoso? Não! É o que sonhamos fazer ao estar ao piano? Não!
Mas é a chave para a famosa execução sem erros. A execução limpa.
Só se esclarece dúvidas quando separamos as mãos. Só se corrige um vício quando separamos as mãos. Só se resolve um desafio quando você tem uma mão de cada vez para dedicar a ele.
É ali que você descobre se sabe de verdade, ou se achava que sabia. O estudo com as mãos separadas não humilha. Ele revela.
E quando as duas mãos finalmente se juntam com o que aprenderam de forma sólida, elas se encaixam. Pode não ser instantaneamente, mas se encaixam muito mais rápido do que qualquer quantidade de repetição apressada poderia ter produzido.
Se você quer aprender a tocar piano desde o início sabendo exatamente o que fazer em cada etapa do estudo:
O prazo que você inventou
Estava assistindo a uma entrevista com Shura Cherkassky, um dos pianistas mais extraordinários do século vinte. A jornalista perguntou se ele tinha sido uma criança prodígio.
Ele citou um dito alemão:
O prodígio desaparece e a criança fica.
A frase tem um fundo sombrio. Fala de algo que acontece com frequência no mundo dos prodígios: a criança impressiona porque é uma criança fazendo algo extraordinário. Mas ela cresce. E o que antes era assombroso vira apenas competente. O espanto some. O que resta é um adulto que ainda espera a admiração de quando tinha oito anos.
Cherkassky tentou enxergar a frase de outro jeito, no próprio caso. Mas o dito existe porque o fenômeno existe.
Fiquei pensando nisso por um bom tempo.
O prodígio aprende cedo uma coisa sobre a música: que ela existe para impressionar. É o que o mundo ao redor dele repete, com aplausos, com elogios, com câmeras. A música vira um instrumento de admiração. E quando a admiração diminui, porque ele cresceu, porque deixou de ser uma novidade, o que sobra pode ser muito pouco.
Quem começa adulto não carrega isso.
Não vai chegar onde o prodígio chegou, é verdade. A técnica tem limites quando se começa mais tarde, e seria desonesto fingir o contrário. Mas a relação com a música pode ser completamente diferente e, em muitos casos, muito mais saudável. Você não toca para impressionar ninguém. Toca porque escolheu. Porque quis. Porque a música significa alguma coisa para você que vai além do aplauso.
Isso é uma coisa que muitos pianistas que começaram prodígios nunca chegaram a ter — e é um tesouro.
A música pode entrar na sua vida como uma alegria real, como algo que você carrega para sempre, que alegra as pessoas ao seu redor, que transforma uma tarde comum numa tarde que fica para sempre na memória. Tudo isso sendo feito no seu tempo, sentindo prazer no processo, e se alegrando com cada resultado.
Se você já pensou em começar e ainda não começou, talvez seja hora de parar de pensar:
Crescendo não é acelerar
A nossa cabeça parece juntar força com velocidade.
É um fenômeno estranho.
Não tem coisa mais comum do que um estudante de música, ao se aproximar de uma indicação para crescer em volume, acabar acelerando a velocidade da peça ao mesmo tempo em que aumenta o som. Poderíamos dizer que isso se dá por uma espécie de ansiedade, que tocar forte dá trabalho, e então o aluno acelera como uma espécie de reflexo instintivo para que o trecho passe logo.
Mas não acredito que seja isso, porque da mesma forma, não tem outra coisa mais comum do que, ao se deparar com uma indicação para diminuir em volume sonoro, o aluno acabar diminuindo a velocidade da peça, ficando mais leve e mais lento.
Para somar a essa confusão, há uma certa polêmica em relação a certos sinais que indicam para crescer e para diminuir que diz que na verdade eles estão se referindo à velocidade da peça.
Essa polêmica é daquele tipo que, para esclarecer de vez, só ressuscitando Chopin e realizando a nossa tão sonhada entrevista.
Enquanto isso não acontece, é preciso ter uma coisa clara:
Não acelere ao crescer em som e não ralente ao diminuir o volume.
Procure dissociar as duas coisas. Elas não devem andar juntas. Confundi-las faz com que a sua execução vire uma bagunça e compromete demais o sentido de cada passagem.
Aliás, como venho falando muito sobre escuta musical, ouvir com atenção é o melhor remédio para não fazer esse tipo de coisa quando for tocar.
Se você quer aprender a tocar piano com esse nível de cuidado desde o começo:
Do Zero à Pour Elise
Finalmente comprei
Comprei um toca-discos de vinil.
Estava com esse plano faz tempo e finalmente aconteceu.
A primeira coisa que percebi foi o chiado. Esse ruído de fundo que os puristas do digital consideram um defeito. Para mim é outra coisa. É a sensação de que existe algo físico ali, algo que tem peso e textura, e que está em contato com uma agulha que vibra. O som parece vir de dentro de alguma coisa.
E os instrumentos, as vozes — há uma intensidade ali que o digital não tem. Parece que a pessoa está na sala.
Mas o que mais me surpreendeu foi outra coisa.
Com o streaming, a música está toda disponível ao mesmo tempo, o mundo inteiro de uma vez, e isso, que parece uma vantagem, faz a gente escutar de um jeito muito estranho. A atenção não fica na música. Fica naquele estado de quem está no meio de uma biblioteca infinita, passando os olhos pelas prateleiras sem nunca pegar nenhum livro. Você ouve trinta segundos de uma coisa e já está pensando na próxima. E a música vai passando como passa qualquer imagem num feed — não deixa rastro, não cria memória, some no mesmo instante em que aparece.
O disco não faz isso.
Você escolhe um. Coloca. A agulha cai. E a decisão já foi tomada.
Agora é ouvir.
Não existe opção B. Não há algoritmo sugerindo. Há aquele disco, aquele lado, aquele conjunto de peças naquela ordem, e é isso que vai existir pelos próximos vinte minutos.
O ritual obriga você a estar presente inteiramente.
E quando você ouve assim, com essa atenção toda, começa a acontecer uma coisa estranha.
Você começa a querer tocar.
A música para de ser algo que você consome e vira algo que você quer produzir. Você memoriza sem querer. Começa a imaginar suas mãos naquilo. E aí o piano deixa de ser um instrumento difícil e distante — vira o caminho mais curto entre você e a música que você já ama.
Para começar:
O melhor começo para aprender piano (e por que não é a partitura)
Demorei para aceitar isso na minha vida.
Afinal de contas, eu não comecei assim. Era criança e comecei a tocar lendo partituras.
Mas esse não é o começo ideal.
O começo ideal deve ser mais prático: sentindo já o que é produzir algo, mesmo que simples, ao instrumento.
Tanto uma criança como um adulto deve, idealmente, imitar bastante coisa antes de ir para um estudo mais teórico e formal.
Primeiro a gente precisa de um pouco de prática para depois encarar a teoria.
Sem contar que, especialmente para um adulto, ter logo de cara a sensação de que é capaz de tocar, de que é capaz de produzir música, é uma maravilha e dá a motivação necessária para seguir em frente por muito tempo.
Claro que não se deve ficar nisso. Depois segue-se para aprender mais coisas: aprender a ler partituras, desenvolver cada vez mais a agilidade, começar a se aventurar por peças mais elaboradas.
Mas o começo imitando é agradável, é simples e funciona.
Quando falo de imitação, conto com o fator das explicações de um professor. Isso é primordial. O aluno precisa ser guiado no que deve prestar atenção.
Isso obviamente não é novidade. De uma forma ou de outra, é o que acontecia há séculos: começava-se imitando.
Se quiser começar exatamente assim:
O que veio depois do pior dia
Em 1805, Beethoven estreou a única ópera que compôs na vida.
Foi um desastre. A plateia era cheia de soldados franceses que tinham ocupado Viena dias antes. Não entendiam alemão. Os cantores trabalhavam contra ele nos bastidores. A peça durou tempo demais. No final, todo mundo saiu insatisfeito, incluindo o próprio Beethoven.
Sabe o que ele fez depois disso?
Voltou para casa e compôs uma sinfonia. E não qualquer sinfonia: o biógrafo que viveu do lado dele por anos escreveu que essa foi a obra mais bem acabada, mais equilibrada, mais precisa que Beethoven tinha feito até então.
O pior momento da carreira dele produziu o melhor trabalho.
Eu penso nisso toda vez que um aluno me conta que tocou para alguém pela primeira vez e não conseguiu nem terminar a música. Travou. Errou tudo que nunca errava quando estava sozinho. Quis sumir estilo ninja na bomba de fumaça .
Esse momento existe para todo mundo. E todo mundo acha que é sinal de que não tem jeito.
Não é.
O que acontece quando você toca para alguém é que aparecem os lugares onde a música ainda não está pronta de verdade. Não porque você não tenha talento, mas porque tocar na frente de alguém é diferente de tocar no quarto, e você ainda não treinou isso. A vergonha que você sente é na verdade informação valiosa. Ela está te dizendo exatamente onde trabalhar.
Beethoven não desistiu da música depois daquele fracasso. Continuou compondo.
Se você quer começar do zero e ter esse processo claro desde o início:
Do Zero à Pour Elise
O ancião de 122 anos
Se tem uma coisa que nos faz evoluir muito ao piano — depois da orientação correta — é ter um instrumento melhor. Como isso ajuda.
Eu me lembro claramente do salto evolutivo que dei a cada vez que consegui trocar de instrumento e pegar algo pelo menos um pouco superior ao anterior.
Não estou dizendo que você precisa comprar esse ou aquele piano, esse ou aquele teclado. Só estou dizendo que, sempre que for possível, procure subir pelo menos um degrau nessa escada. Pode ser um degrau modesto.
Você vai notar que vários “problemas” que tinha estavam diretamente ligados às limitações do seu próprio instrumento.
Não estou dizendo que todas as suas dificuldades vêm daí. Mas uma parte considerável delas, sim, especialmente se o instrumento for mais simples.
Vale dizer que isso tudo se aplica quando a gente já toca há algum tempo.
Mas estou falando isso por um motivo bastante pessoal. Meu piano já está bem cansado e está precisando de substituição. É um ancião de 122 anos, imagina só.
Dito isso, preciso completar o raciocínio:
Se você está pensando em começar, não se preocupe com nada disso.
Para começar do zero, basta ter algum instrumento. Pode ser bem simples. Quase qualquer coisa serve.
Depois que você começou e a música te fisgou, aí sim você pode pensar no próximo instrumento.
O próximo precisa ser um pouco melhor que o atual. Um pouquinho já basta para conseguir um grande salto musical.
Para quem ainda está no começo e quer partir de onde está, com o que tem:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
Expliquem as regras para os seus alunos!
Ao tocar piano, uma vez que já sabemos as notas, e elas estão acontecendo no momento certo da música, o que mais devemos fazer para ficar realmente bonito?
Existem outras coisas que a partitura nos indica, que de maneira geral estão ligadas a conectar ou não as notas, tocar forte, tocar leve, acelerar e diminuir a velocidade.
Mas isso tudo ainda é indicação de algo um tanto amplo, mais abrangente, e não chega a nos explicar algum tipo de contraste que a gente tem que fazer entre cada nota, para que aquilo tenha um sentido para quem está ouvindo.
Então, a respeito dessas orientações mais miúdas e bem específicas, eu fico impressionado como os professores de piano não costumam transmitir aos alunos — talvez porque não tenha sido transmitido à maioria deles mesmos — algumas regras simples e claras. São conceitos que dão um norte muito claro a qualquer pessoa que esteja se perguntando como fazer a sua música parecer menos um robô tocando e mais música de verdade.
É claro que essas regras podem ser quebradas.
Não é para se apegar tanto assim a elas, não.
Nem sei se poderíamos usar a palavra “regras” para esse conjunto de informações que estão mais para conselhos práticos do que para leis universais.
Essas tais regrinhas (vou continuar chamando de “regras” na falta de outro nome) estão espalhadas por tantos e tantos livros sobre música importantíssimos. Literatura básica mesmo.
Elas aparecem inclusive em um livro divisor de águas chamado Chopin visto por seus alunos, de Jean-Jacques Eigeldinger, no primeiro parágrafo do capítulo dedicado à “Teoria do Estilo”. São cinco diretrizes, preciosas, iluminadoras. Experimente colocar em prática e você vai ver a diferença.
Aliás, termino esse email dizendo que fico muito triste com a falta de hábito dos professores e pianistas de frequentar as importantes obras literárias sobre música.
Elas têm informações que simplificariam a vida dos alunos e dos próprios professores.
E se você quer aprender de uma forma que leva em conta essas orientações desde o início:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/





