Não, não tem nada a ver com “uma vez que aprende nunca mais esquece”.
Com a bicicleta pode ser mais ou menos assim, mas não com o piano.
A semelhança está em outra parte.
É a seguinte:
Como estamos sem carro, ultimamente eu e minha esposa estamos utilizando bastante a bicicleta. Não é por ideologia ciclística, nem por um mundo melhor, nem por mais saúde, é apenas por necessidade. Se pudesse, continuaria utilizando um carro.
Enfim, voltando pra história:
Em uma de nossas pedaladas até o mercado, enquanto eu ia distraído, pensando na vida e tal, percebo por visão periférica que minha esposa está fazendo movimentos estranhos.
Quando viro a cabeça e olho pra ela, a cena é mais do que estranha:
A bicicleta já estava caída no chão e minha esposa, em pé, começa a esbravejar.
(Incrível sua habilidade de cair de bicicleta sem cair no chão)
Vi que estava tudo bem com ela.
Não havia um pneu furado ou corrente caída.
Nada.
A bike estava intacta.
(Nem sequer um novo arranhão)
Aí minha reação foi perguntar exatamente o que você está se perguntando agora:
“– O que aconteceu?”
E a resposta foi:
“– Não sei! Eu estava olhando pro pedal, tentando controlar o impulso da perna da frente e da perna de trás, quando perdi o equilíbrio!”
Pensei que pudesse ter sido um buraco ou algo assim e não pensei mais no assunto.
Montamos e seguimos o caminho.
No mercado, em um daqueles momentos epifânicos, uma hipótese surgiu.
E testei esta hipótese durante todo o caminho de volta:
Já falei várias vezes sobre “segurança” ao piano, que é uma visão um tanto diferente de “tocar” piano. Normalmente apenas os professores precisam saber dessa diferença, mas no ensino online, pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. Segurança ao piano é quando você sabe que pode fazer as coisas meio que no automático. Quando, sem se confundir, pode antecipar tudo o que está por vir na música: dedilhados, ritmo, dinâmica etc.
É uma visão panorâmica.
Bem, é com essa visão panorâmica que se deve tocar piano.
Enquanto não faz isso, você está apenas treinando.
E se por um momento perder a visão panorâmica, tudo vai por água abaixo.
Foi exatamente o que aconteceu com minha esposa.
Enquanto ela estava pedalando, prestando atenção no conjunto do percurso, enfim, com uma visão ampla de tudo, tudo ia bem. Quando ela resolveu prestar atenção em um parâmetro único, prestar atenção na técnica de pedalar, aí o conjunto que ia bem se desfez. E ela perdeu o equilíbrio.
Se você está tocando uma música e começa a pensar:
“E agora, qual o ritmo…”
“Quais são as notas…”
“Qual é a próxima frase…”
“Como tenho de mexer o dedo aqui…”
A coisa começa a desandar e você fica paralisado.
Muitos acham que isso é um problema emocional, mas é falta de saber de verdade o que está fazendo.
E por não saber, pensar em cada coisa separada só piora.
Então se você quer saber o que um professor de piano faz, é isso:
Ele cria o cenário para o aluno desenvolver e treinar suas habilidades pra chegar no ponto de não pensar nessas habilidades e, enfim, poder dizer que “toca piano”.
Essa história foi meio longa, eu sei.
Mas é imprescindível que meus alunos entendam essa diferença de perspectiva.
“Tocar” um instrumento não é tão difícil.
Fazê-lo com segurança, que é a sensação que todos querem ter, já não é bem assim.
(Nota: Se você é um estudante intermediário de piano e sente que está empacado no aprendizado, faça seu cadastro pra receber o conteúdo Como Criar Exercícios Para Piano! Cadastre-se aqui.)



