Quando os dedos travam

Quando eu era criança, estudei um tempo com um jovem pianista, amigo da minha família.

Era uma pessoa de sensibilidade enorme, grande cultura. Foi ele quem me apresentou o mundo da música clássica de forma encantadora. Pianista mediano, não era brilhante. 

Mas o que acontecia com ele em público era terrível.

Quando surgia a ocasião de tocar para outras pessoas, ele travava completamente.

Não saía nada.

Começava a tremer, a transpirar, e os dedos simplesmente não respondiam. 

Ele se tornou para mim o retrato completo de alguém que tem dificuldade para tocar em público.

O problema é que, quanto mais nervoso ele ficava, menos queria tocar para os outros. E quanto menos tocava para os outros, menos sentia urgência em aprender as peças com profundidade. 

Um ciclo que levava a tocar cada vez menos repertório, tocar cada vez pior, e ficar cada vez mais nervoso nas situações cada vez mais raras em que tinha que apresentar algo.

A saída desse ciclo é justamente quebrá-lo.

Depois de já ter aprendido as peças escolhidas, você se prepara com atenção dobrada durante pelo menos um mês: 

Estuda diariamente, memoriza as peças não só com as duas mãos juntas mas também com as mãos separadas, e entende minimamente por quais acordes a música está passando. 

Depois disso, você se coloca à prova com esse mesmo repertório de forma seguida — de preferência semanalmente, ou pelo menos sem esperar meses entre uma ocasião e outra.

A situação de estar tocando para as pessoas não pode ser sentida como um evento isolado na sua vida. 

Quanto mais rotineira for, melhor.

Tocar em público é um misto de preparo sólido e hábito com o contexto.

Quando os dois estão presentes, os dedos respondem.

Quer construir esse preparo desde o início?

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