Crescendo não é acelerar
A nossa cabeça parece juntar força com velocidade.
É um fenômeno estranho.
Não tem coisa mais comum do que um estudante de música, ao se aproximar de uma indicação para crescer em volume, acabar acelerando a velocidade da peça ao mesmo tempo em que aumenta o som. Poderíamos dizer que isso se dá por uma espécie de ansiedade, que tocar forte dá trabalho, e então o aluno acelera como uma espécie de reflexo instintivo para que o trecho passe logo.
Mas não acredito que seja isso, porque da mesma forma, não tem outra coisa mais comum do que, ao se deparar com uma indicação para diminuir em volume sonoro, o aluno acabar diminuindo a velocidade da peça, ficando mais leve e mais lento.
Para somar a essa confusão, há uma certa polêmica em relação a certos sinais que indicam para crescer e para diminuir que diz que na verdade eles estão se referindo à velocidade da peça.
Essa polêmica é daquele tipo que, para esclarecer de vez, só ressuscitando Chopin e realizando a nossa tão sonhada entrevista.
Enquanto isso não acontece, é preciso ter uma coisa clara:
Não acelere ao crescer em som e não ralente ao diminuir o volume.
Procure dissociar as duas coisas. Elas não devem andar juntas. Confundi-las faz com que a sua execução vire uma bagunça e compromete demais o sentido de cada passagem.
Aliás, como venho falando muito sobre escuta musical, ouvir com atenção é o melhor remédio para não fazer esse tipo de coisa quando for tocar.
Se você quer aprender a tocar piano com esse nível de cuidado desde o começo:
Do Zero à Pour Elise
Finalmente comprei
Comprei um toca-discos de vinil.
Estava com esse plano faz tempo e finalmente aconteceu.
A primeira coisa que percebi foi o chiado. Esse ruído de fundo que os puristas do digital consideram um defeito. Para mim é outra coisa. É a sensação de que existe algo físico ali, algo que tem peso e textura, e que está em contato com uma agulha que vibra. O som parece vir de dentro de alguma coisa.
E os instrumentos, as vozes — há uma intensidade ali que o digital não tem. Parece que a pessoa está na sala.
Mas o que mais me surpreendeu foi outra coisa.
Com o streaming, a música está toda disponível ao mesmo tempo, o mundo inteiro de uma vez, e isso, que parece uma vantagem, faz a gente escutar de um jeito muito estranho. A atenção não fica na música. Fica naquele estado de quem está no meio de uma biblioteca infinita, passando os olhos pelas prateleiras sem nunca pegar nenhum livro. Você ouve trinta segundos de uma coisa e já está pensando na próxima. E a música vai passando como passa qualquer imagem num feed — não deixa rastro, não cria memória, some no mesmo instante em que aparece.
O disco não faz isso.
Você escolhe um. Coloca. A agulha cai. E a decisão já foi tomada.
Agora é ouvir.
Não existe opção B. Não há algoritmo sugerindo. Há aquele disco, aquele lado, aquele conjunto de peças naquela ordem, e é isso que vai existir pelos próximos vinte minutos.
O ritual obriga você a estar presente inteiramente.
E quando você ouve assim, com essa atenção toda, começa a acontecer uma coisa estranha.
Você começa a querer tocar.
A música para de ser algo que você consome e vira algo que você quer produzir. Você memoriza sem querer. Começa a imaginar suas mãos naquilo. E aí o piano deixa de ser um instrumento difícil e distante — vira o caminho mais curto entre você e a música que você já ama.
Para começar:
O melhor começo para aprender piano (e por que não é a partitura)
Demorei para aceitar isso na minha vida.
Afinal de contas, eu não comecei assim. Era criança e comecei a tocar lendo partituras.
Mas esse não é o começo ideal.
O começo ideal deve ser mais prático: sentindo já o que é produzir algo, mesmo que simples, ao instrumento.
Tanto uma criança como um adulto deve, idealmente, imitar bastante coisa antes de ir para um estudo mais teórico e formal.
Primeiro a gente precisa de um pouco de prática para depois encarar a teoria.
Sem contar que, especialmente para um adulto, ter logo de cara a sensação de que é capaz de tocar, de que é capaz de produzir música, é uma maravilha e dá a motivação necessária para seguir em frente por muito tempo.
Claro que não se deve ficar nisso. Depois segue-se para aprender mais coisas: aprender a ler partituras, desenvolver cada vez mais a agilidade, começar a se aventurar por peças mais elaboradas.
Mas o começo imitando é agradável, é simples e funciona.
Quando falo de imitação, conto com o fator das explicações de um professor. Isso é primordial. O aluno precisa ser guiado no que deve prestar atenção.
Isso obviamente não é novidade. De uma forma ou de outra, é o que acontecia há séculos: começava-se imitando.
Se quiser começar exatamente assim:
O que veio depois do pior dia
Em 1805, Beethoven estreou a única ópera que compôs na vida.
Foi um desastre. A plateia era cheia de soldados franceses que tinham ocupado Viena dias antes. Não entendiam alemão. Os cantores trabalhavam contra ele nos bastidores. A peça durou tempo demais. No final, todo mundo saiu insatisfeito, incluindo o próprio Beethoven.
Sabe o que ele fez depois disso?
Voltou para casa e compôs uma sinfonia. E não qualquer sinfonia: o biógrafo que viveu do lado dele por anos escreveu que essa foi a obra mais bem acabada, mais equilibrada, mais precisa que Beethoven tinha feito até então.
O pior momento da carreira dele produziu o melhor trabalho.
Eu penso nisso toda vez que um aluno me conta que tocou para alguém pela primeira vez e não conseguiu nem terminar a música. Travou. Errou tudo que nunca errava quando estava sozinho. Quis sumir estilo ninja na bomba de fumaça .
Esse momento existe para todo mundo. E todo mundo acha que é sinal de que não tem jeito.
Não é.
O que acontece quando você toca para alguém é que aparecem os lugares onde a música ainda não está pronta de verdade. Não porque você não tenha talento, mas porque tocar na frente de alguém é diferente de tocar no quarto, e você ainda não treinou isso. A vergonha que você sente é na verdade informação valiosa. Ela está te dizendo exatamente onde trabalhar.
Beethoven não desistiu da música depois daquele fracasso. Continuou compondo.
Se você quer começar do zero e ter esse processo claro desde o início:
Do Zero à Pour Elise
O ancião de 122 anos
Se tem uma coisa que nos faz evoluir muito ao piano — depois da orientação correta — é ter um instrumento melhor. Como isso ajuda.
Eu me lembro claramente do salto evolutivo que dei a cada vez que consegui trocar de instrumento e pegar algo pelo menos um pouco superior ao anterior.
Não estou dizendo que você precisa comprar esse ou aquele piano, esse ou aquele teclado. Só estou dizendo que, sempre que for possível, procure subir pelo menos um degrau nessa escada. Pode ser um degrau modesto.
Você vai notar que vários “problemas” que tinha estavam diretamente ligados às limitações do seu próprio instrumento.
Não estou dizendo que todas as suas dificuldades vêm daí. Mas uma parte considerável delas, sim, especialmente se o instrumento for mais simples.
Vale dizer que isso tudo se aplica quando a gente já toca há algum tempo.
Mas estou falando isso por um motivo bastante pessoal. Meu piano já está bem cansado e está precisando de substituição. É um ancião de 122 anos, imagina só.
Dito isso, preciso completar o raciocínio:
Se você está pensando em começar, não se preocupe com nada disso.
Para começar do zero, basta ter algum instrumento. Pode ser bem simples. Quase qualquer coisa serve.
Depois que você começou e a música te fisgou, aí sim você pode pensar no próximo instrumento.
O próximo precisa ser um pouco melhor que o atual. Um pouquinho já basta para conseguir um grande salto musical.
Para quem ainda está no começo e quer partir de onde está, com o que tem:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
Expliquem as regras para os seus alunos!
Ao tocar piano, uma vez que já sabemos as notas, e elas estão acontecendo no momento certo da música, o que mais devemos fazer para ficar realmente bonito?
Existem outras coisas que a partitura nos indica, que de maneira geral estão ligadas a conectar ou não as notas, tocar forte, tocar leve, acelerar e diminuir a velocidade.
Mas isso tudo ainda é indicação de algo um tanto amplo, mais abrangente, e não chega a nos explicar algum tipo de contraste que a gente tem que fazer entre cada nota, para que aquilo tenha um sentido para quem está ouvindo.
Então, a respeito dessas orientações mais miúdas e bem específicas, eu fico impressionado como os professores de piano não costumam transmitir aos alunos — talvez porque não tenha sido transmitido à maioria deles mesmos — algumas regras simples e claras. São conceitos que dão um norte muito claro a qualquer pessoa que esteja se perguntando como fazer a sua música parecer menos um robô tocando e mais música de verdade.
É claro que essas regras podem ser quebradas.
Não é para se apegar tanto assim a elas, não.
Nem sei se poderíamos usar a palavra “regras” para esse conjunto de informações que estão mais para conselhos práticos do que para leis universais.
Essas tais regrinhas (vou continuar chamando de “regras” na falta de outro nome) estão espalhadas por tantos e tantos livros sobre música importantíssimos. Literatura básica mesmo.
Elas aparecem inclusive em um livro divisor de águas chamado Chopin visto por seus alunos, de Jean-Jacques Eigeldinger, no primeiro parágrafo do capítulo dedicado à “Teoria do Estilo”. São cinco diretrizes, preciosas, iluminadoras. Experimente colocar em prática e você vai ver a diferença.
Aliás, termino esse email dizendo que fico muito triste com a falta de hábito dos professores e pianistas de frequentar as importantes obras literárias sobre música.
Elas têm informações que simplificariam a vida dos alunos e dos próprios professores.
E se você quer aprender de uma forma que leva em conta essas orientações desde o início:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
Que horas sai o próximo cisne?
Essa semana estou me lembrando de coisas cômicas sobre música.
Ontem falei pra vocês do rapaz que chamou Bach de Bachzinho pra aliviar o peso de tocá-lo numa prova.
Hoje me lembrei de uma outra história, bastante conhecida nos bastidores da ópera, que aconteceu numa apresentação de Lohengrin, de Wagner.
Olha essa:
Existe um momento na ópera em que o próprio Lohengrin tem que partir porque sua esposa Elsa quebrou a proibição de perguntar o seu nome e a sua origem. Lohengrin é então obrigado a revelar que é cavaleiro do Santo Graal, filho de Parsifal. Com isso, perde o direito de permanecer no mundo dos mortais e precisa partir. É nesse momento que ele se despede de Elsa e retorna embarcado pelo cisne, desaparecendo da cena. Esse cisne é geralmente um cisne mecânico disparado por algum contrarregra do teatro.
Na apresentação de 1913 em que Leo Slezak cantava o papel principal, o contrarregra disparou o cisne antes da hora. O bicho foi pra longe do palco enquanto o cantor ainda estava cantando.
Slezak terminou a ária, viu que o cisne já tinha ido embora, se virou para o público e perguntou:
“Vocês sabem a que horas sai o próximo cisne?”
Quem quer entrar de vez nesse mundo da música, com tudo que ele tem de sério e de cômico, começa por aqui:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
Bach ou Bachzinho?
Vou contar uma coisa que eu acho muito engraçada. A maneira com que certas pessoas, em certas circunstâncias, se referem a grandes gênios da música.
De vez em quando o pessoal abusa da intimidade de um jeito que só no Brasil a gente faz.
Quando eu tinha 17 anos e estava aguardando (bastante nervoso) para fazer a prova de música no vestibular da USP, fiquei ali em um espaço com o pessoal que também estava na mesma situação.
Me chamou a atenção um rapaz que estava particularmente agitado, andando para lá e para cá. O nervosismo dele era óbvio.
Então começou ali na turma uma conversa sobre o que cada um iria tocar para a banca de jurados.
Nessas horas acho que a pessoa, que está se sentindo oprimida pela situação, tende a querer aliviar um pouco o peso da responsabilidade que está carregando. Por isso eu nunca mais me esqueci de que esse rapaz, quando perguntado, respondeu com voz tímida:
“Vou tocar um Bachzinho…”
Todo mundo caiu na gargalhada.
Como quem diz “nada demais, não… só uma coisinha de nada”.
Foi uma boa quebrada de gelo — involuntária — na tensão em que todos estavam. Até hoje, quando lembro desse sujeito chamando Bach no diminutivo quando estava tremendo de nervoso, me traz um sorriso carinhoso no rosto.
Bachzinho ou Bach — o compositor é o mesmo. O que muda é o quanto você se sente à altura de tocá-lo.
Se você quer começar a chegar lá:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
Sua panela tá fogo?
O professor Neuhaus tem uma imagem no seu livro que nunca saiu da minha cabeça.
“Imagine que você precisa ferver uma panela d’água. É preciso colocá-la sobre o fogo e não tirar a panela dali até que a água entre em ebulição.
Mas a verdade é que a maioria das pessoas, quando se trata de estudar piano, coloca a sua ‘panela musical’ no fogo até que ele chegue a uns 40 ou 50 graus, e então desliga o fogo para se ocupar de alguma outra coisa. Depois de algum tempo, ela se lembra da ‘panela’ e a põe de novo para esquentar, sem nem se dar conta de que a água já esfriou. Então a pessoa repete essa operação várias vezes e, no final das contas, irritada, percebe que perdeu seu tempo sem resultado porque deixou cair demais a ‘energia do estudo’.
A maturidade do aluno se mede pela sua capacidade de estudar sem perder tempo inutilmente e sem dispersar a sua atenção. Quanto mais a vontade e a atenção participam desse processo, mais os resultados são espetaculares. Quanto maior a passividade e a inércia, mais demora para aprender as peças e quase inevitavelmente o interesse se esvai.”
Heinrich Neuhaus, A Arte do Piano
Pensar no nosso estudo ao piano como uma água que precisa ferver é uma imagem perfeita.
Na verdade, muita gente, principalmente iniciantes, nunca chegou a experimentar isso. Minha indicação geral para iniciantes é começar com 20 a 30 minutos de estudo por dia.
Mas depois de alguns passos já dados, experimente ficar mais, insistir mais, mergulhar profundamente no que está fazendo e esquecer um pouco o mundo. Deixe suas mãos e dedos se aquecerem, sua concentração se fixar, a percepção ficar aguçada.
Isso vai te fazer dar um salto grande.
Você vai ver o que são águas sonoras em ebulição.
Se você está no começo dessa jornada e quer aprender a manter a chama acesa desde as primeiras semanas, este é o seu próximo passo:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
Quando eu paro de corrigir
A coisa mais frequente em aulas de piano é corrigir notas erradas ou ritmo errado.
A correção é objetiva, nem sempre simples de executar, mas objetiva.
A segunda coisa mais frequente é corrigir acentuações erradas. O aluno está acentuando notas que não devem ser acentuadas, e a música acaba soando como alguém falando com as sílabas tônicas todas no lugar errado. Soa realmente estranho.
Depois desse estágio vem algo mais difícil.
As notas estão lá, o ritmo está lá, tudo está sendo tocado com clareza. Mas ainda falta entender qual sonoridade procurar, em que velocidade tudo deve caminhar, onde a música precisa respirar, onde ela precisa avançar, que ambiente ela deve criar. São detalhes pequenos que, juntos, fazem a diferença entre tocar as notas e fazer música.
E é aqui que o professor precisa tomar muito cuidado.
A maioria dos alunos precisa de orientação em cada um desses detalhes. Precisa de uma referência sonora para cada momento da peça. E o professor dá essa referência.
Mas existe um tipo de aluno diferente.
Às vezes nem toca tão bem do ponto de vista mecânico. Mas tem personalidade musical. Tem um jeito próprio de conduzir a frase, de respirar no momento certo, de dar peso onde ninguém esperava. A peça passa a soar como uma língua que ele fala, e faz sentido para quem está ouvindo.
Quando percebo isso em aula, minha pergunta muda completamente.
Deixo de me perguntar como corrigir e passo a me perguntar: como posso ajudar esse aluno a realizar exatamente o que ele está esboçando? Como posso ajudá-lo a ir mais fundo nisso, em vez de aparar as pontas?
Nesse momento, inclusive, deixo alguns detalhes em que o compositor contraria a intenção do aluno um pouco de lado. Ver uma personalidade musical nascer diante dos seus olhos é importante demais para ser interrompido por purismos.
A tarefa do professor não é só ajudar o aluno a trilhar o próprio caminho. É ajudá-lo a identificar que caminho é esse.
Se você está começando agora e quer construir esse caminho desde o início:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/

