A peça mais fácil do recital
No último recital da Classe Avançada, meu aluno Osmar escolheu tocar três peças curtas do Álbum para a Juventude, opus 39, de Tchaikovsky.
Peças bem simples para o nível dele.
Na verdade, quando ele me propôs esse programa, eu pensei que seria uma escolha sem graça.
Achei que o grupo não iria achar interessante ouvir aquilo no recital.
Mas deixei ele escolher assim mesmo.
Algo me dizia que uma escolha modesta de repertório poderia ser uma ideia interessante.
Afinal de contas, todo mundo fica tão nervoso na hora de tocar para os outros.
Mas no dia do recital aconteceu uma verdadeira revelação.
Osmar não apenas acertou as notas. Não apenas chegou ao fim da peça, sobreviveu, digamos assim, como costuma acontecer quando estamos tocando no limite do que somos capazes.
Ele fez Música. Com M maiúsculo.
Sem peso. Sem tensão. Sem aquela cara de quem está lutando contra um gorila.
E isso foi perceptível e fascinante para todo o grupo.
A explicação é simples e óbvia:
Quando a peça está abaixo do seu limite técnico, sobra espaço para outra coisa. Sobra atenção para frasear, para respirar, para escutar o que você mesmo está tocando enquanto toca. Isso não acontece quando cada nota ainda exige esforço só para não errar.
Qualquer ser humano, mesmo que não toque piano, sabe muito bem disso.
Mas o negócio é que a gente esquece.
É muito fácil cair na tentação de querer tocar algo desafiador. Aquela peça que a gente tanto sonha.
Veja bem, não há nada de errado em querer tocar o que se sonha. Aliás, é uma coisa excelente.
O problema é quando se está falando de poder dividir com os outros algo que ainda está no território dos sonhos e desafios.
Por isso, desde aquele recital, a orientação que dou para cada aluno da Classe Avançada é a seguinte:
Vamos escolher juntos uma peça que te desafie, sim. Mas vamos escolher juntos também uma ou duas peças bem abaixo do seu limite, peças que você pode dominar tão bem que sobra espaço para fazer música de verdade.
O resultado do próximo recital tende a ser um encontro em que ninguém esteja simplesmente sobrevivendo ao piano, mas em que as pessoas possam relaxar e tocar, e quem ouve também possa relaxar e ouvir.
Isso vale para quem está na Classe Avançada e igualmente para quem está começando agora.
É preciso saber equilibrar os momentos em que se está procurando realizar o que ainda está acima de você com realizar plenamente aquilo que você já é capaz de dominar com tranquilidade.
Se você quer aprender, desde a primeira peça, a tocar sem esse peso, sem essa tensão de estar sempre no limite:
Quando ele morreu, sumiu uma biblioteca
Existe uma frase africana que eu ouvi faz alguns anos e que ficou gravada na minha cabeça desde então.
Quando morre um velho, arde uma biblioteca.
A frase serve para qualquer ancião de uma cultura oral, mas ela costuma ser dita a respeito de um sujeito bem específico: o bardo.
O bardo era o músico encarregado de guardar a memória do povo dele. Genealogias, batalhas, migrações, fundações de cidade, alianças, traições, o nome de quem fez o quê e por quê. Tudo aquilo morava dentro de uma pessoa e só saía de lá cantado.
Não existia arquivo. Existia ele.
E aqui está a parte mais fascinante:
Aquelas memórias poderiam ter sido guardadas de outro jeito. Escritas em um livro, ué? Um livro de história faz esse serviço muito bem e tem a vantagem de não precisar de ninguém afinado para funcionar.
Só que guardar as informações não era a única intenção.
Queria-se que aquilo fosse revivido. Que o povo sentisse outra vez o medo daquela noite, o orgulho daquela vitória, a falta daquele rei. A memória precisava voltar quente, e para voltar quente ela tinha que voltar cantada. Por isso o encarregado era um músico e não um escriba.
Com o bardo ia embora o único jeito que aquele povo tinha de reviver o passado. As histórias poderiam até ser recontadas. Só que ninguém mais as sentia como se estivesse acontecendo tudo de novo.
Daí uma biblioteca inteira desaparecer junto com um homem só.
Quando me dei conta disso, a música passou a me parecer uma coisa ainda mais séria do que já me parecia.
O povo do bardo sabia o que estava revivendo. Havia um rei, uma batalha, um nome. Você, sentado sozinho com um fone de ouvido, não tem nada disso, e mesmo assim a coisa acontece. Você ouve certas passagens e sente no peito, na garganta, no fígado. Tem música que dá um aperto físico em quem está apenas sentado ouvindo. Isso é uma memória sendo revivida, mesmo quando você não faz ideia de qual memória se trata.
Agora, alguém pode me dizer: Felipe, o bardo cantava palavras, a memória estava no texto.
Em grande parte estava mesmo.
Mas experimente ouvir os primeiros compassos de uma sinfonia de Beethoven, ou o momento em que o coro entra no Requiem de Mozart, e me diga se aquilo não traz alguma coisa de volta. Não vem em forma de frase. Vem como as coisas vêm num sonho, sem contorno definido, sem nome, mas vem.
A música instrumental faz o trabalho do bardo por outro caminho. Sem contar o que aconteceu, ela devolve o que foi sentido.
Por isso ouvir música é abrir uma caixa de sentimentos. E essa caixa abre em graus diferentes. Quem reconhece o que está acontecendo ali dentro, quem percebe que aquele tema voltou transformado, que aquela voz está respondendo a outra, que aquele acorde chegou no lugar onde ninguém esperava, sente aquilo com mais força, e nunca com menos.
Quer aprender a abrir essa caixa comigo, obra por obra?
Felipe Scagliusi
Um programa de índio
Preciso me retratar com vocês.
Há alguns dias contei que ia para as montanhas aqui na Romênia com a minha esposa, a convite de uns amigos. Prometi um final de semana de contemplação, aquele quadro bucólico que eu tanto sonhava.
Não foi isso que aconteceu.
Um convite que parecia simples
O convite parecia simples. Uma trilha para espairecer um pouco, coisa de fim de semana numa região montanhosa. Não pesquisei nada porque não parecia necessário.
Não fazia ideia de que estava prestes a viver uma história tragicômica. Incluo a parte cômica porque, graças a Deus, aqui estou eu para contar. Por um triz, o final não foi apenas trágico.
Chegando lá, descobri que a tal montanha era o Moldoveanu, a mais alta da Romênia, com mais de 2500 metros. Nada de trilha modesta. Aquilo era escalada, e das grandes.
Eu e minha esposa nunca tínhamos feito nada parecido. O grupo mais experiente seguiu na frente e nos deixou para trás, no nosso próprio ritmo, acompanhados só de um amigo que se revelou um anjo.
Quinze horas de escalada
O percurso levou quinze horas.
Escalamos rocha depois de rocha, em um trecho tivemos até que segurar em correntes para não despencar penhasco abaixo. Passagens estreitas com precipício dos dois lados. Mais rocha. Tensão máxima em cada passo, porque bastava um pé errado. Tanto esforço, tanto cansaço.
Chegamos ao pico e quase não deu para aproveitar a vista. Afinal faltavam ainda muitas horas até lá embaixo, e cada minuto contava (e vocês já vão entender o motivo).
O grupo que levava a comida não esperou. Passamos o dia inteiro escalando sem ter tomado café da manhã. Para completar, a água estava acabando.
Na descida, as pernas já não obedeciam. Tremiam por completo. Toda a força foi parar nos braços, apoiados nas varetas de trekking.
As últimas quatro horas foram descendo por uma floresta cheia de ursos, com a noite caindo. Depois ficou tudo escuro, e sobrou só a bateria de uma lanterna pequena procurando as marcações precárias da trilha.
Graças a Deus, os ursos não deram o ar da graça e quando finalmente, quase desmaiados, encontramos o grupo que tinha ido na frente, estava todo mundo preocupado. Alguns chorando. Já tinham avisado a guarda local do nosso desaparecimento.
A lição que fica
Se você vai para a montanha, primeiro descubra de que montanha se está falando.
Vale para trilha. Vale para piano.
Ninguém deveria subir um Moldoveanu sem saber, de fato, no que está se metendo. Ninguém deveria dar um passo maior que a perna, sem alguém para guiar o ritmo certo.
Encontrar o urso no meio do caminho não tem graça nenhuma.
Se você quer aprender piano com alguém guiando cada passo, sem sustos pelo caminho:
Será que eu amei um sonho?
Existe um poema de quatro páginas que deu origem a uma das obras mais importantes da música do século vinte. Chama A Tarde de um Fauno, e a história que ele conta é uma das mais estranhas que eu conheço.
A Tarde de um Fauno, o poema de Mallarmé
Cento e dez versos, cabe em quatro páginas, e você lê em uns oito minutos.
Se chama “A Tarde de um Fauno”, do Mallarmé, publicado em 1876 com ilustrações do Manet.
Sicília, meio-dia, calor de rachar.
Um fauno, ser que é metade homem, metade bode, acorda sozinho na beira de um brejo e a primeira coisa que ele diz é que viu duas ninfas ali e quer guardar aquilo para sempre.
Segunda coisa que ele diz, quatro versos depois: será que eu amei um sonho?
Pronto. Essa é a pergunta que segura o poema inteiro de pé.
O fauno procura uma prova e não encontra
Porque ele não tem prova nenhuma de que esteve com aquelas duas.
Então ele procura. Olha os juncos que estava cortando, olha a água (calma demais), sopra a própria flauta para ver se o som traz alguma coisa de volta e conclui que o único vento que sai dali é o dele mesmo.
Aí começa a discutir consigo mesmo.
Uma hora decide que uma das ninfas era fria e a outra era toda suspiros. Outra hora se pergunta se as duas não seriam só um desejo dele tomando forma. Chega a olhar para o próprio peito procurando marca de mordida.
Não acha nada.
Então muda de estratégia e resolve simplesmente contar como foi. E na versão dele, narrada com o maior orgulho, ele viu as duas dormindo abraçadas, correu, pegou as duas de uma vez sem nem desgrudar uma da outra e saiu voando com elas para trás de um matagal de rosas.
Elas escaparam, claro.
E o crime dele, o que estragou tudo, teria sido separar o abraço das duas, que os deuses tinham deixado ali tão bem misturado.
Depois disso ele desiste, come umas uvas e fica olhando o sol até escurecer.
Ainda dá tempo de cogitar uma investida na própria Vênus, lá no Etna. Pensa melhor e conclui que aquilo terminaria mal para ele.
No fim, diz que precisa dormir, deita na areia quente e se despede das duas na sua própria imaginação.
Sem saber, no fim das contas, se elas existiram.
O que faz esse poema ser uma obra de arte
O que faz esse poema ser uma obra de arte é o jeito como foi escrito.
Ler aquilo é como acompanhar alguém acordando devagar e se confundindo a cada momento.
E ao mesmo tempo você enxerga um mundo mitológico inteiro. Uma história simples, contada de um jeito tão colorido que te tira desse mundo.
Leia. Oito minutos. É uma experiência e tanto.
A música que Debussy escreveu a partir do poema
Baseado nesse poema, Debussy escreveu uma música: o Prelúdio à Tarde de um Fauno, dez minutos para orquestra, estreado em Paris em 1894.
Uma obra-prima, talvez tão importante quanto o poema, ou mais.
E a música coloca você lá: o calor parado, a certeza do primeiro instante, a dúvida chegando, o desânimo, o sono voltando no fim. Você não fica sabendo daquela tarde. Você passa por ela.
Para ouvir uma peça dessas com toda a atenção e profundidade que ela merece, é preciso guiamento.
Se você quiser ouvir assim, comigo do seu lado:
Para não gaguejar ao piano
Em 1815, Maelzel patenteou o metrônomo.
Beethoven adotou o aparelho na hora.
Foi atrás das oito sinfonias que já estavam publicadas e escreveu marcação de andamento para todas elas, uma por uma. Depois, quando soube que a Nona tinha sido muito bem recebida em Berlim, disse que boa parte do mérito era daquelas indicações.
Quer dizer: o sujeito que escreveu aquela música gostava do troço.
Por que todo mundo odeia o metrônomo?
Agora pergunte para um adulto que estuda piano se ele usa metrônomo.
A resposta vem antes de você terminar a pergunta.
Deus me livre. Aquilo me deixa nervoso. Aquilo é coisa de robô.
E eu entendo. Quase sempre a pessoa tentou uma vez, colocou o aparelho na velocidade parecida com a da música, não conseguiu acompanhar e concluiu que o problema estava ali.
Só que tem um problema anterior a esse. E é justamente ele que o metrônomo resolve.
O pianista gago
Você senta ao piano e começa a peça. As primeiras linhas saem bem. Aí chega aquele trecho e você para. Volta um pouco, repete, engata de novo. Segue mais um pouco e para outra vez.
Toda sessão de estudo acontece assim: você virou uma espécie de pianista gago e as paradas que você dá já se incorporaram à própria música. Passaram a fazer parte da sua interpretação.
O metrônomo tira isso do caminho.
O segredo é a velocidade
E o segredo é um só: coloque no andamento mais lento que você aguentar. Lento o bastante para o trecho difícil passar sem interrupção. Se precisar ficar tão devagar que a música pareça outra coisa, tudo bem. Deixa devagar.
Porque o que importa agora é atravessar do começo ao fim sem tropeçar. É isso que as suas mãos estão aprendendo.
Quando aquela velocidade ficar confortável, você sobe um pouquinho. Depois mais um pouquinho.
E vai assim, de degrau em degrau, até chegar no andamento que a música pede. A fluência aparece sozinha no caminho.
O pulso que vem de dentro
Agora, ninguém deve estudar o tempo todo com o metrônomo ligado.
Existe um pulso que precisa nascer dentro de você. Ele só aparece quando você sente a música pulsando por conta própria, sem ninguém marcando por fora. Um metrônomo interno, digamos assim. E nenhum aparelho vai construir isso no seu lugar.
Mas aqui está a parte boa: esse pulso interno se forma bem mais rápido em quem já passou um tempo estudando com o aparelho ligado.
Uma coisa prepara a outra.
A receita
Por isso a minha receita é simples:
Trinta por cento do seu estudo com metrônomo. Setenta por cento sem ele.
Se você quer aprender desde a primeira peça a estudar de um jeito que não deixa buracos pelo caminho:
Como estudar uma música nova no piano
Eu sempre digo que a principal coisa que ofereço a quem quer aprender piano é um caminho claro e fácil.
Digo isso, mas nem sempre explico o que estou querendo dizer com claro e fácil.
Então hoje explico. Vou mostrar como estudar uma música nova no piano, na ordem exata em que faço isso com meus alunos.
Por que o adulto trava logo no começo
Em mais de trinta anos ensinando piano, vejo os adultos se atrapalharem sempre pelo mesmo motivo: informação demais. Existe tanta coisa circulando sobre qual seria a maneira mais eficaz de aprender a tocar bem que a saída acaba sendo tentar tudo. Assistem duzentos vídeos no YouTube, baixam uma infinidade de pdfs, acompanham aulas e mais aulas de professores diferentes, e no fim das contas concluem que o problema está em não terem começado quando eram crianças.
Não está.
O que eu vejo fazer um adulto evoluir é cuidar de uma missão pequena de cada vez. Quando ele tem alguma coisa que o mantém nessa linha, ele vai melhorando, vai se empolgando, e a empolgação faz ele estudar mais. Aí ele melhora mais. E isso segue até chegar num nível que parecia distante, impossível. Aí vem a euforia, aquela vontade de rir que aparece quando a satisfação começa a transbordar pelos poros.
Como estudar uma música nova no piano, passo a passo
A estratégia é esta:
Primeiro, só as notas da mão direita, sem pensar em quanto cada nota deve durar. A preocupação é apenas qual nota tocar e com qual dedo. Isso se repete devagar, dez vezes.
Depois entra uma contagem cíclica e regular, e as notas vão sendo encaixadas dentro dela. Aqui é preciso ouvir e ver o professor fazendo, para repetir e entender bem. Se você fez a primeira parte, que já é bem simples, essa é mais fácil ainda.
Depois a gente repete o mesmo processo com a mão esquerda.
Aí vêm as duas mãos juntas, mais uma vez sem preocupação com a duração de cada nota, apenas atacando as notas conforme está escrito no guia que deve nos conduzir. A gente vai vendo quando as duas mãos tocam ao mesmo tempo e quando cada uma toca sozinha no desenrolar da música. Depois de tudo o que veio antes, essa parte também é simples e acontece quase automaticamente.
E finalmente as duas mãos dentro de uma contagem bem lenta, encaixando as notas naquela contagem regular do jeito que o professor indica.
Depois disso vêm outros passos, igualmente simples, para ir deixando a música cada vez mais bonita.
Mas é esse primeiro caminho que põe as coisas em seu lugar. É ele que põe a música de pé. Quem faz assim está andando num caminho claro e fácil.
Está explicado, então, o que eu quero dizer com isso.
Se você quer percorrer esse caminho comigo, do primeiro dedo na tecla até a sua primeira peça inteira:
Mostra a sua mão aí
Acontece toda hora.
A pessoa levanta a mão na frente da câmera, abre os dedos o máximo que consegue e pergunta se aquilo ali dá para tocar piano.
Às vezes a preocupação é a mão pequena. Às vezes é o dedo curto, o dedo muito grosso, o dedo mindinho que parece não servir para nada. Tem gente que se desculpa pela mão antes de tocar a primeira nota, como quem avisa que o carro é velho antes de dar a partida.
Então vamos resolver isso hoje.
Alicia de Larrocha foi uma das maiores pianistas do século vinte e era uma mulher miúda, de mãos pequenas. Pequenas mesmo. O professor dela, Frank Marshall, a colocou desde cedo em exercícios de extensão, e ela chegou a alcançar uma décima. A mão continuou pequena do mesmo jeito. O que cresceu foi o que ela conseguia fazer com aquela mão.
Josef Hofmann tinha a mesma dificuldade e resolveu de outro jeito. Pediu à Steinway um piano com as teclas um pouco mais estreitas, feito sob medida.
Cada um teve o seu caminho.
Agora, uma concessão honesta.
Existe sim uma mão ideal para o piano. Grande, de dedos finos e compridos, que alcança sem esforço e circula entre as teclas pretas sem esbarrar em nada.
O detalhe é que, se você percorrer a lista dos pianistas mais importantes da história e for verificar quem de fato tinha uma mão assim, vai encontrar uma minoria. O resto trabalhou com aquilo que recebeu e resolveu o problema no estudo.
Existe também o extremo oposto, que quase ninguém menciona. Rachmaninoff alcançava distâncias que a maioria dos pianistas nunca vai alcançar, mas mão grande vive esbarrando onde a mão pequena passa com folga. O dedo muito largo entre duas teclas pretas é um problema real, que dá trabalho e exige solução.
No fundo, toda mão tem a sua lista de dificuldades. A sua não é exceção.
O que o tamanho da mão faz é mudar o dedilhado, mudar a distribuição das notas entre as duas mãos, mudar o momento em que um acorde precisa ser quebrado em vez de tocado inteiro, mudar quais peças vão exigir mais trabalho de você do que exigiriam de outra pessoa. São questões técnicas, e cada uma delas tem resposta conhecida há duzentos anos.
Aqui está o ponto que me interessa.
A mão é uma explicação confortável porque ela é visível, mensurável e não depende de você. Se o obstáculo está no osso, o assunto se encerra antes de começar. Ninguém precisa se expor, ninguém precisa errar na frente de ninguém, ninguém precisa descobrir se seria capaz.
E o mais irônico de tudo é que nos primeiros meses de estudo a extensão da mão praticamente não é exigida. A mão fica parada numa posição, cinco dedos em cinco teclas, e o trabalho todo está em outro lugar: em ouvir o que você está fazendo, em coordenar as duas mãos, em contar, em entender para onde a música está indo.
Quando a extensão finalmente começar a pesar, você já vai conhecer a sua mão o suficiente para saber o que fazer com ela.
Quer descobrir do que a sua mão é capaz já nas primeiras semanas?
Morreu de arrumar a sala
Existe um livro curtinho que me marcou muito e que eu gostaria de usar como tema deste meu email.
“A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói.
Talvez seja um dos livros mais importantes que já li.
É uma verdadeira bomba.
Entre tantas coisas profundas e terríveis que Tolstói mostra na vida do personagem, tem um detalhe do qual eu não me esqueço. A doença que mata Ivan Ilitch começa numa tarde em que ele sobe numa escada para mostrar ao tapeceiro como quer a cortina pendurada no apartamento novo. Escorrega e bate o flanco no puxador da janela.
Ele morre de arrumar a sala.
Passou a vida montando a aparência de uma vida boa e foi a montagem que o matou. No fim, quando procura na memória algum momento em que esteve inteiro, só encontra coisas da infância. Todo o resto ficou guardado para um momento que ele tinha certeza de que ainda ia chegar.
Eu sei que esse é um exemplo extremo e muito dramático.
Mas também tenho certeza de que é mais comum do que se imagina.
O livro faz a gente questionar todo o jeito como vivemos e refletir se estamos de fato vivendo uma vida verdadeira.
Está muito ligado à ideia de não esperar que chegue o momento ideal para fazer o que você sente que precisa fazer para crescer como ser humano. Simplesmente porque na maioria das vezes um momento exatamente assim não chega nunca.
É preciso dar um jeito de dar o passo inicial apesar das circunstâncias.
Um exemplo:
Sei que preciso sair mais de casa e passar mais tempo na natureza. Tenho certeza de que isso seria muito importante para mim.
Penso também (ou sonho) que vai chegar um momento oportuno em que vou ter todas as circunstâncias ajeitadas e aí finalmente vou poder estar na natureza como quem mergulhou em um quadro de Caspar David Friedrich.
É altamente provável que isso nunca aconteça.
Então tomei uma decisão:
Vou para as montanhas aqui na Romênia com a minha esposa por um final de semana.
Não é o que eu idealizei, mas já é alguma coisa.
Por medo daquele destino horrível e cruel que Tolstói descreve, lá vou eu.
Me nego a ser o Ivan Ilitch com todas as minhas forças.
Se o seu sonho, aquilo que você sempre quis que fizesse parte da sua vida, é aprender a tocar piano, o caminho está abaixo:
Do Zero à Pour Elise
Tatuagem no cerebelo
Existe um tipo de coisa que a gente aprende e esquece, e existe outro tipo que a gente aprende e nunca mais perde. Andar de bicicleta e nadar são os exemplos de sempre.
Com as peças de piano acontece algo parecido, por mais que não seja essa a impressão de quem estuda.
Todo mundo já ouviu falar em memória muscular no piano, mas quase ninguém confia nela de verdade.
Esses dias abri uma peça que eu não tocava havia muitos e muitos anos.
Foi uma peça que toquei muito de fato.
Sentei esperando o pior, e nos primeiros minutos foi uma espécie de ônibus sem freio nas ladeiras de São Francisco.
Mas em dois ou três dias de estudo ela estava de volta inteira, com dedilhado, com pedal, com decisões de interpretação que eu tinha tomado décadas atrás e que nem lembrava de ter tomado.
Isso acontece quando a peça já passou tempo suficiente pelo nosso sistema gastro-musical.
Quando uma peça é mastigada semana após semana por alguns bons meses, ela entra na circulação e não sai mais. Fica tatuada no cerebelo.
A impressão que a gente tem geralmente é a oposta.
A gente acha que repertório é coisa volátil: estudou, tocou, esqueceu. Estudou a próxima, perdeu a anterior. Como se fosse preciso cavar tudo de novo, do zero, toda vez.
Às vezes é assim mesmo. Mas não é sempre. Depende do nível de relacionamento íntimo que você teve com a peça e do quanto vocês foram para a “guerra” juntos.
Claro que é preciso estudar de novo. Ninguém senta e sai tocando de primeira. Mas o trabalho que você vai ter se parece muito mais com desentupir um cano do que com abrir um poço novo.
E aqui vem a parte engraçada.
Justamente essas peças, as que você tocou até enjoar, são as que parecem ter perdido a graça. Você olha para uma delas e pensa que não vai emocionar mais ninguém, que já saiu tantas vezes da sua mão que agora sai mecânica, sem vida. Então você escolhe tocar outra coisa, mais nova, que ainda te dá algum frio na barriga.
Mas o enjoo é todo seu. Quem escuta está ouvindo aquilo pela primeira vez e não está envolvido com a sua aventura numa peça nova. A pessoa só quer escutar algo agradável, ou pelo menos convincente.
E tudo que faz parte de nós parece um pouco sem graça.
Isso é assim mesmo.
E é exatamente por isso que essas são as peças que você deve tocar para os outros. Porque já são de fato suas, viraram parte de você.
E, no final das contas, só se divide aquilo que se tem.
Coceira de pianista
Existe uma etapa do estudo que todo mundo fica doido para abreviar.
Parece que dá coceira na mão e a gente quer parar com aquilo.
Estou falando de estudar com as mãos separadas.
Quando o professor disser que algo precisa ser estudado mais com as mãos separadas, o aluno sente como se estivesse sendo rebaixado de marechal pra tenente. Não é assim, claro. Mas é assim que parece.
A vontade de todo mundo é juntar as mãos logo, ouvir a música acontecer, sentir que está chegando em algum lugar. Estudar a mão direita parece um castigo.
Então o aluno junta antes da hora.
Escrevi esses dias sobre uma entrevista com o pianista Shura Cherkassky. Vale voltar agora a essa entrevista.
Ali a jornalista pergunta:
Como você estuda?
E ele responde:
Isso é constrangedor. Eu estudo tão devagar e com as mãos separadas muito tempo. Quem me ouve estudando acha que na verdade eu estou afinando o piano.
Vamos tirar daí a lição de uma vez por todas.
Estudar muito com as mãos separadas e lentamente é o que quem quer colher frutos concretos faz. É gostoso? Não! É o que sonhamos fazer ao estar ao piano? Não!
Mas é a chave para a famosa execução sem erros. A execução limpa.
Só se esclarece dúvidas quando separamos as mãos. Só se corrige um vício quando separamos as mãos. Só se resolve um desafio quando você tem uma mão de cada vez para dedicar a ele.
É ali que você descobre se sabe de verdade, ou se achava que sabia. O estudo com as mãos separadas não humilha. Ele revela.
E quando as duas mãos finalmente se juntam com o que aprenderam de forma sólida, elas se encaixam. Pode não ser instantaneamente, mas se encaixam muito mais rápido do que qualquer quantidade de repetição apressada poderia ter produzido.
Se você quer aprender a tocar piano desde o início sabendo exatamente o que fazer em cada etapa do estudo:



