O diabo está nos detalhes

Na mensagem que enviei sobre o vídeo de dicas de respiração, escrevi que “indicar algo genericamente é difícil”.

Me referia a indicar algo pra controlar a respiração.

Ninguém perguntou, mas explico assim mesmo o motivo de ser difícil.

Das três dicas dadas no vídeo, apenas uma era relacionada diretamente com respiração.

As outras duas se referiam a algo indireto.

O fato é o seguinte:

É simples entender que é preciso encontrar as frases musicais e, a partir delas, controlar os pontos de respiração. Também é simples fazer isso bem devagar. É simples você conseguir controlar a respiração nas três primeiras frases da música. Até aí, sem problemas.

O diabo está em fazer isso com continuidade.

Em começar e terminar uma música toda.

Por isso as duas outras dicas do vídeo são importantes.

Elas indicam que não é preciso fazer mais do mesmo.

É preciso uma mudança de vida.

No caso, estudar a técnica e praticar alguma outra atividade física.

Aí sim a pessoa será capaz de controlar a respiração mesmo.

Pensando bem, isso se aplica em um sentido mais amplo:

Não é tão difícil copiar um tutorial por aí.

(Se fosse, não existiriam tantos viciados em tutoriais)

Encontrar as teclas mais ou menos certas e fazer a imaginação trabalhar pra considerar que o trabalho está bom, é uma coisa fácil. Difícil mesmo é polir mais um pouco a execução pra que alcance um nível de beleza aceitável.

Difícil é desenvolver a capacidade de conseguir tocar aquela música com um pouco mais de velocidade.

E pra isso não tem milagre.

Precisa daquela mudança na vida…

Que, nesse caso, chama-se “estudo”, ou melhor, rotina de estudo.

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Vamos falar de carreira por um segundo…

Não comecei este trabalho pela internet pra ajudar pessoas na sua carreira musical.

O motivo é simples:

Não sei nada sobre como criar uma carreira.

(“Não sei nada” é eufemismo pra “não quero saber desse assunto” :P)

No sentido normal do termo “carreira”, algo como um percurso profissional que cria uma rede de contatos e atuações a serem tratados como um ofício, já desisti de ter uma faz tempo. A necessidade de tapinhas nas costas, sorrisinhos amarelos e alianças políticas que a “rede de contatos” exige pra manter-se no percurso profissional, me fez desistir.

O que não quer dizer que eu tenha desistido das atuações.

Como sempre falo, “música pra si mesmo” não é música.

Toquei nesse assunto não apenas porque existem vários jovens que me perguntam sobre esse assunto, já que estão interessados em saber “quanto vão ganhar pra ser músico”, mas também porque recentemente uma aluna VIP me fez exatamente esta pergunta:

“Qual caminho seguir pra atuar no meio musical?”

Essa pergunta me fez lembrar da minha própria história.

E repito aqui (mais ou menos) a resposta que dei pra ela:

Há alguns anos meu foco era a “carreira”.

(No sentido normal que dei acima).

Estava tocando com alguma frequência em salas importantes no Brasil e na Europa.

Mas sempre é possível deixar tudo mais sólido.

Em uma das conversas com o grande Nelson Freire, tomei a liberdade de perguntar o que deveria fazer pra conseguir atuar mais. Achava que ele ia me dar uma solução genial ou passar algum contato importante, mas tudo que ele me disse foi:

“Você precisa é estudar! Aprender de verdade. Está com a cabeça na carreira, mas cadê a MÚSICA? Você precisa tocar melhor”

Ele estava certíssimo!

Eu pensava obstinadamente em carreira e a música estava cumprindo o papel de trampolim pra que eu realizasse o sonho de ser famoso.

Ganhar dinheiro…

(Ou pelo menos pagar as minhas contas hehe)

Ser culto…

Atuar no meio de pessoas interessantes…

Fazer sempre algo tão lindo assim etc etc…

A verdade é que todas essas coisas são periféricas, e muitas delas completamente ilusórias.

O que entendi do que o Nelson me falou é que tudo o que vai ditar o poder de atuação é a REAL capacidade.

Foi aí que comecei a perceber que realmente não me interessava pela parte “política” da carreira.

Sei que tem gente que consegue passar por ela sem afetar-se.

Mas não é o meu caso.

O que posso recomendar mesmo é:

Estude! Estude muito! Escute música com frequência, grave-se, leia sobre música, pesquise. Coloque toda a energia de ação, que está querendo correr atrás de carreira, no estudo. Troque o foco. Só assim sua possibilidade de atuar vai se tornar mais clara. E pode ter certeza de que vai ficar bem clara!

Digo isso porque foi o que aconteceu comigo.

Assim que esqueci a definição normal de “carreira”, outras possibilidades se abriram.

Possibilidades que se encaixam muito melhor na minha personalidade.

Enfim, eu não queria falar nada sobre “carreira”, mas acho que até saiu alguma coisa.

Espero que sirva pra alguém.

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Evitando a morte ao tocar piano

Muitos alunos têm dificuldade de controlar a respiração enquanto tocam e isso pode ser a causa não apenas de morte por asfixia, mas, pior do que isso, pode arruinar com a execução musical. Relutei um pouco pra falar sobre isso, já que indicar algo genericamente é difícil.

Abaixo está um vídeo dando algumas dicas.

Confira aqui:

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5 indicações da partitura que o quase-intermediário deve dar atenção

Existe um momento nos estudos de partitura que a decodificação não é mais um problema.

Normalmente isso indica que o estudante está entrando em um novo mundo.

É o mundo inexplorado de todas as partituras existentes.

Agora é questão de explorar esse mundo.

Mas ainda é preciso fazer as coisas com calma. Provavelmente o estudante ainda está longe de poder olhar a partitura como um todo. Ainda falta aquele olhar da experiência que não deixa confundir uma coisa pela outra.

Por isso aqui vão 5 indicações, em sequência, que esse estudante deve dar atenção.

1) Armadura de clave

Se treinou escalas, não há muito segredo.

Ainda é comum deixar passar alguns sustenidos ou bemóis.

Então preste bastante atenção na armadura.

2) Fórmula de compasso

Por já ter estudado outras peças, embora não muitas, esse estudante já pode recorrer à memória pra identificar qual é a sensação rítmica que ela pretende.

Isso é muito útil.

3) Altura das notas

Existem grandes saltos ou sequências de notas que podem apresentar alguma dificuldade técnica?

Começar pelo que é mais problemático é uma ótima tática.

4) Ritmo

Alguma divisão rítmica desconhecida?

O solfejo pode ajudar a decifrar algo ainda obscuro.

5) Articulação e dinâmica

Em quais pontos as notas são mais ligadas?

E quais são menos?

Sabendo as indicações de articulação presentes na peça, e a intensidade geral utilizada, é possível pensar quais exercícios técnicos são mais proveitosos e eficazes pra favorecer o seu mecanismo a executá-la.

Enfim, esse é um tipo de sequência de estudo bem enxuto.

Outros tipos são possíveis.

Claro, não importa o nível do aluno, qualquer uma dessas indicações são importantes, mas o ponto é que, por falta de experiência, é melhor que o aluno quase-intermediário dê atenção especial pra essa sequência.

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Tratamento online de incompetência

Na mensagem em que falei sobre a constatação de que “incompetentes não percebem que são incompetentes”, meu aluno Claudemir Medeiros respondeu com uma distinção importantíssima:

====

Bom dia Felipe, parabéns por mais um belo “lembrete”.

Certa vez lendo algo na internet vi uma divisão que colocava ainda dois níveis de competência, de maneira que existiriam competente consciente (aquele que é competente e é consciente da competência), o competente inconsciente (que é competente mas não tem consciência) e o mesmo se aplica para os incompetentes.

E eu acredito que o primeiro passo é tomar consciência da própria incompetência para então procurar o “tratamento”. Seus vídeos e textos me ajudam a tomar consciência dos mais variados itens onde sou incompetente e me torna em incompetente consciente. E, para os casos onde a incompetência é identificada, os vídeos com exercícios para tratá-los ajudam a resolver e passar do estágio de incompetência para o de competência.

Mais uma vez parabéns pelo trabalho e que continue nos tornando cada vez mais conscientes das incompetências e, melhor ainda, a sair do estágio de incompetência para o de competência.

Abraço.

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De fato!

Acho que não ficou claro na minha mensagem anterior:

Parece que existe um tipo de incompetência que é cega pra si mesmo.

Não me interessei em saber se os psicólogos acham se isso é irreversível ou não.

Mas o Claudemir tem toda razão…

A estratégia dele é a mais correta.

Em algum sentido meu trabalho por aqui trate-se de ajudar o aluno a se diagnosticar…

E, claro, encontrar o tratamento correto.

Um verdadeiro tratamento online de incompetência.

(Pelo menos da incompetência ao piano)

Então, ficar atento às mensagens e aos vídeos é essencial pra saúde pianística do aluno.

#ficadica

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Como resolver o vício de seguir o dedilhado e não a nota na partitura

Há três meses publiquei um vídeo orientando os iniciantes a como perder o vício de relacionar o dedilhado escrito na partitura com a altura da nota. Ontem uma nova aluna minha pediu alguma dica exatamente pra resolver esse problema. Qual seria a resposta padrão?

“Procure no meu canal, já tenho um vídeo publicado”

Mas hoje estou especialmente gentil.

Esqueci por um tempo que devo incentivar o aluno a ficar íntimo de todos os meus vídeos, e resolvi informar diretamente o link.

Aqui está:

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Você não é tão esperto quanto pensa

Uma das constatações mais úteis do livro “Você não é tão esperto quanto pensa”, de David MacRaney, é o efeito Dunning-Kruger.

A definição é simples:

Incompetentes não percebem que são incompetentes.

Digo que a constatação é útil, pois confirma um senso comum.

Não sou entusiasta de novidades científicas, ou que pareçam científicas, que contrariem o senso comum. Prefiro aguardar que o tempo diga o que a conclusão tinha de “novidade”, o que tinha de “científica” e, mais importante, o que tinha de verdadeira.

Mas o Efeito Dunning-Kruger está na consciência de quase todos.

Percebo isso nas muitas mensagens do tipo:

“Como ter certeza de que estou seguindo corretamente as lições online?”

Ou como esta do meu aluno Rubens Curi:

====

Outro dia, ao terminar os estudos, fui impactado por uma percepção: poxa, estou tocando piano! Você acredita que eu ainda não havia me dado conta da evolução ocorrida do início até aqui? Foi uma emoção especial, acompanhada de vários obrigados direcionados à você.

Tenho acompanhado todos os seus e-mails e os vídeos. Divirto-me com seu humor e aproveito todas as orientações. Elas tem elucidado várias coisas no meio do caminho, ajudando efetivamente. Na medida em que me dou conta de um procedimento errado ou viciado, retomo, seguindo suas recomendações.

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Enfim, são interessados querendo saber como passarão por esse problema da incompetência inicial.

Ou alunos demonstrando que a confiança nas lições realmente dá frutos.

Demonstra a visão de que a falta de conhecimento dificulta uma conclusão confiável.

Isso é muito bom!

Essa cegueira na própria auto-avaliação pode ter vários níveis.

E, como sempre, não existe remédio mágico pra combatê-la.

Por isso minha didática nas lições online difere da presencial.

Os problemas são outros…

Então as soluções também tem de ser diferentes.

E quem é meu aluno, já recebeu ou ainda vai receber mais informações de como resolver esse problema da auto-avaliação de uma vez por todas.

Por isso, continue seguindo firme nas lições.

Pra quem tem superioridade ilusória em nível muito alto, não precisa dar atenção a nada do que eu digo. Afinal, esses tem certeza de que são tão espertos quanto pensam que são.

Quem não pensa assim, pode continuar estudando comigo.

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Se tivesse um balde por perto, vomitaria

Uns 10 anos atrás fui convidado pra tocar em um festival na Sérvia.

Tudo estava bem, até entrar no avião.

Não, não fiquei enjoado no vôo.

Fiquei com o estômago embrulhado por outro motivo.

O fato é que eu não havia estudado o repertório direito. Pra passar o tempo na viagem, peguei as partituras e comecei a revisar e a fazer uma execução mental do que estava ali. (Ainda não foi por isso que a feijoada queria voltar). Enquanto fazia essa revisão, percebi que tinha vários pontos cegos na minha execução. Enfim, começou a bater uma insegurança.

10 segundos pensando nisso e eu já estava nervoso.

Resolvi parar de pensar um pouco nesse assunto.

Peguei aquelas revistas de avião que ficam no bolsão e dei uma folheada.

Na terceira página tinha uma baita propaganda do festival.

E meu nome estava ali.

Comecei a passar do estado de nervoso pra quase-desespero.

Agora mesmo é que não conseguiria parar de pensar que estava frito.

Tentei dormir.

Acho que consegui um pouco.

Até arrisco dizer que parei de pensar no problema.

Quando estava saindo do avião, um distinto cidadão começa a puxar papo comigo e logo pula pro assunto de música (porque viu que eu tinha mexido em algumas partituras) e, pra me botar no estado definitivo de desespero, me disse que eu deveria ir até o festival de música que teria por ali logo mais (exatamente aquele que me botou nessa situação).

Enfim, não tive tempo de estudar mais.

Mesmo assim, seriam necessários mais dias pra deixar a coisa bem preparada.

E não havia mais dias disponíveis.

Com as pernas bambas e a cabeça feito um balão, me apresentei no tal festival.

Nessa apresentação, com toda certeza, se tivesse um balde por perto, eu não conseguira evitar o vômito. Mas como a idéia de sujar tudo por ali assim, sem cortes, era muito punk rock, aguentei o inferno estomacal.

Fiz o que pude nas passagens cegas.

Até que recebi elogios das pessoas que estiveram presentes, mas tenho bastante consciência de qual seria a opinião dos meus professores, caso me vissem ali. Com toda certeza eles notariam minha insegurança.

Foi esse episódio que me despertou pra essa origem do nervosismo.

Inclusive já gravei alguns vídeos falando sobre isso.

É essencial saber o que fazer com ele, principalmente pra sair do eremitismo musical, e fazer pequenas apresentações, mesmo que pra nossos amigos e familiares.

Enfim, já observei essa situação várias vezes.

Já trabalhei com diversos alunos com esse problema.

A principal origem do nervosismo é a falta de estudo.

E falta de estudo correto.

Aquele que faz o aluno absorver a música profundamente.

Quem consegue fazer isso, mesmo que se apresente com algum nervosismo inicial, consegue se controlar ao perceber que está conseguindo fazer tudo com segurança. E a segurança vem do estudo.

Qualquer outro motivo, é sempre secundário.

Tudo bem se você não quiser estudar direito.

Você tem toda a liberdade.

Mas nunca esqueça do balde.

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Lição de Axelrod para os cabeças-de-pudim

O Netflix é o representante máximo dos meus momentos cabeça-de-pudim.

Em um desses momentos, escolhi a série “Billions” pra passar o tempo. A estória é sobre um bilionário, Bobby Axelrod, que conseguiu sua fortuna com investimentos em Wall Street. Seus métodos não são muitos “oficiais”, e a todo momento ele burla leis e normas pra conseguir informações e ganhar ainda mais dinheiro. Axelrod é perseguido por um promotor muito ambicioso que deseja o prender por crimes financeiros e assim ganhar fama e abrilhantar seu currículo.

Um verdadeiro joguinho de gato e rato.

E nesse passatempo cabeça-de-pudim está escondida uma lição bem interessante.

É um aviso pra todos os cabeças-de-pudim.

A cena é esta:

Axelrod está em um estádio de corrida de cavalo.

Ele está contando pra um advogado que foi apostando ali que começou sua fortuna.

Mais ou menos isto:

“Este lugar explica muito sobre a vida: pessoas correndo em direção à janela de apostas, com muita esperança. Sem nenhum plano. Depois, eu as via saírem da pista rasgando os bilhetes com desgosto. Eu não seria uma delas. Eu apostava, mas antes eu descobria onde estava a ação de verdade. Onde estavam os caras que tinha um plano.”

Muito esperto, não?

E facilmente adaptável para o aprendizado de piano.

Quantos de vocês já não se jogaram em uma escola de piano…

Ou nas mãos de um professor particular…

Ou em vídeos de Youtube…

Ou em PDFs milagrosos.

Sempre esperando, com muita esperança, apostando que terão resultados.

Outro dia alguém me mandou o seguinte e-mail: “Gostaria de receber meu dinheiro de volta pois seu PDF não me ajudou”.

Eu respondi:

“PDF? Não ofereço nenhum PDF.”

Re-resposta:

“Este PDF aqui” (e o PDF estava em anexo).

O PDF não era realmente meu.

E como bom curioso, dei uma olhada no arquivo.

Não havia nome do autor.

No site que vendia, também não havia menção nenhuma.

Era um material mágico que se materializou sozinho.

Sem nenhuma referência.

Enfim, essa pessoa não apenas não sabia a diferença entre o autor desse PDF e eu, ela sequer sabia quem era o autor da apostila. Percebeu a analogia com “pessoas correndo em direção à janela de apostas, com muita esperança. Sem nenhum plano. Depois, eu as via saírem da pista rasgando os bilhetes com desgosto”?

A lição é bem clara.

E você não precisa fraudar as leis como Axelrod fez pra se dar bem.

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Pra completar os dias dos esquecidos

Estes últimos dias foram os dias das coisas esquecidas. Resolvi fechá-los com chave de ouro. Me pediram sugestões pra preencher de “experiência” a rotina de estudo. Então basta assistir ao vídeo abaixo, lá recomendo um compositor especialmente útil para os estudantes intermediários.

Aqui está:

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