4 motivos pra estudar várias músicas
Vamos voltar ao tema dos “perfeccionistas”…
Um dos sinais de estar infectado da doença dos cabeças-de-manjar é a fixação em estudar apenas uma peça.
Sabe como é, “fico nessa música até sair perfeita” (sic)
Claro que não existe uma regra da Comissão Internacional de Professores de Piano da ONU que diz que é obrigatório estudar várias ou que é obrigatório estudar apenas uma. O que quero enumerar aqui são motivos pra alguém que esteja atormentado pela obsessão do “perfeccionismo”, saia desse buraco e estude de maneira saudável.
Aqui vão 4 motivos pra estudar várias peças.
(Recomendo que não passe de três)
1) O Piloto de Avião Experiente
Uma vez li que mais da metade dos acidentes aéreos são causados por erros humanos, e desses muito mais da metade são causados por pilotos experientes.
É o famoso excesso de confiança.
Alguns procedimentos são feitos sem muito cuidado…
Outros, quem sabe, nem são feitos.
“– Eu consigo pousar esse negócio numa boa, já tenho experiência”.
Bem é mais ou menos o que acontece com quem fica alguns dias ou semanas apenas estudando uma única peça.
O ouvido começa a ajustar a execução e você nem percebe mais que está errando…
Afinal, já sabe bem como a música acontece e não precisa mais dos detalhes.
Deu pra perceber o problema?
2) A Bola de Neve do Aprendizado
Se você é meu aluno então tem acesso a algum material definido e organizado.
Bem, eu não escolhi certas peças e exercícios “porque sim”, mas por uma lógica.
Uma peça exercita uma coisa e outra peça exercita outra coisa.
Capisci?
Se você tiver tempo suficiente pra variar entre 2 ou 3 lições, perceberá que se dedicar em resolver problemas diferentes, faz com que a solução estudada em uma lição ajuda a resolver o problema proposto em outra. É uma verdadeira bola de neve de aprendizado.
3) O Cansaço Invisível
Pra variar, conheço essa mania de perfeccionismo porque eu mesmo já a tive.
Só comecei a reparar que era um problema quando me vi evitando de ir até o piano estudar.
Ou diminuindo o tempo de estudo por nenhum motivo consciente.
Qual era o motivo?
Eu estava cansado de estudar aquela peça e não percebia.
Bastou adicionar outra no estudos e o ânimo foi renovado.
4) Contrarie-se
Sabe um grande segredo pra dar saltos no aprendizado?
Utilize o bom senso e tente contrariar alguma opinião muito teimosa que você tenha.
Se você pensa “Eu TENHO de estudar apenas uma música, assim fico bom”, então aproveite justamente pra estudar mais de uma e assim se contrariar. Não digo isso apenas porque contrariar-se é legal, mas porque pode ser uma chance de descobrir que tinha uma opinião estúpida ou, não, na verdade você tentou e percebeu que realmente só funciona direito estudando uma música…
Mas pelo menos você perdeu um pouco da teimosia.
(Imploro que utilize bom senso pra isso, não quero ninguém tentando tocar com os pés porque quer “contrariar-se”)
(Nota: Se você quer entender como começar no piano, então cadastre-se no Minicurso de Piano Para Iniciantes. Cadastre-se aqui.)
Não encha o saco!
Acho que nunca tive tantas respostas quanto ao texto sobre encontrar pessoas que conversem sobre música.
Foram mais respostas do que quando fiz uma analogia com o Lula e os ofendidos acharam que eu estava falando de política, ou que estava defendendo, pasmem!, o neoliberalismo. Talvez eles pensem que eu esteja falando de cinema quando falo sobre Van Damme ou Senhor dos Anéis, ou que eu esteja falando sobre auto-ajuda quando falo pra não ficar de chororô…
Enfim, voltando ao assunto…
Algumas respostas continham uma reclamação específica:
Parece que o maior problema com familiares é que eles não aguentam o som do instrumento.
Maridos, esposas, filhos, netos… estão sem paciência de escutar alguém estudando.
D. Lourdes, por exemplo, relatou que seu neto diz:
“– Vó, não enche o saco com esse piano!”
(sério, se eu fizesse isso com minha vó, não teria dentes hoje em dia)
Bem, nunca tive problema com as pessoas que moravam comigo, mas já tive com vizinhos.
Claro que quem tem instrumento eletrônico pode se livrar facilmente desse problema, simplesmente utilizando fones de ouvido (um salve especial para os instrumentos eletrônicos! Hip-Hip! Hurra!). Mas alguns alunos estão nessa vida de estudos pra dominar o instrumento acústico.
Passei anos em guerra com um vizinho.
Até que finalmente chegamos em um acordo com os horários.
Não é apenas com teoria e prática que o estudante tem de lidar.
Ainda existem esses problemas de convivência.
Isso me faz lembrar de um vídeo que vi algumas semanas atrás, compartilhado no Facebook:
Alguém dizia que teve enormes dificuldades na infância pra aprender teclado, que não tinha dinheiro, que não tinha tempo, que ninguém ajudava a realizar o sonho, e todo esse blá-blá-blá sentimentalista pra deixar com peninha, até que finalmente ele descobriu (ou inventou) uma maneira de aprender, e agora vende essa fórmula pra quem quiser.
Mas o que aconteceu com a falta de dinheiro?
Com a falta de tempo?
Com a falta de pessoas compreensivas?
É claro que essa fórmula não pode solucionar esses tipos de problema pra você.
Nem eu, pois também passo por eles.
Também tenho de lidar com pessoas que acham que estou enchendo o saco.
Também não tenho o instrumento que eu gostaria de ter.
Também gostaria que a vida fosse mais leve e que me sobrasse mais tempo.
Só gostaria de frisar que nada disso deveria abalar definitivamente o ânimo do estudante. A verdade é que sempre desejaremos que a vida seja mais fácil, mas não devemos fazer ouvidos moucos ao chamamento musical, porque é certo que, se o fizermos, nos arrependeremos no final.
Se você der um jeito de responder a esse chamado, eu garanto:
Será como muitos que já nem lembram mais das dificuldades, porque estão aproveitando os frutos.
(Nota: Se você é um estudante intermediário de piano e sente que está empacado no aprendizado, faça seu cadastro pra receber o conteúdo Como Criar Exercícios Para Piano! Cadastre-se aqui.)
Encontrando pessoas que te entendem
Dilema que algumas pessoas enfrentam:
Assim que entram em contato com o universo musical e percebem o quanto é vasto e intrincado, sentem a necessidade de conversar sobre o assunto com alguém, afinal, nada melhor do que tentar enxergar o assunto por outra perspectiva, na esperança de vê-lo mais claramente.
Mas muitos não encontram esse alguém.
Também enfrento uma situação parecida com meu trabalho pela internet.
A maioria dos interessados já chega com uma visão pré-concebida de como aprender, e estão apenas dispostos a fazer exigências e não de parar, prestar atenção e entender o que estou explicando.
Nos dois casos é preciso encontrar quem está disposto a “entender”.
Vejamos se consigo explicar melhor:
Como professor meu objetivo é, obviamente, ensinar a tocar piano.
Rapidinho percebi que não posso ensinar a todos.
Como disse acima, existem pessoas que não estão totalmente abertas a entender.
Aprendi que não devo dar atenção a essas.
Em um primeiro momento pode parecer algo contra-intuitivo e cruel.
Já gastei uma enorme quantidade de tempo e palavras tentando convencer por vários ângulos imagináveis qual seria a melhor abordagem possível pra determinados problemas pra algumas pessoas. Mas elas simplesmente não entenderam. A estratégia que adotei é de explicar meu ponto de vista aos poucos e me dedicar aos que conseguiram captar algo…
Aqueles que mais sentiram que o assunto foi iluminado em algum ponto.
O efeito colateral foi:
Os que não entenderam têm a chance de manter algum contato com o material que publico e, quem sabe, alguma fichar cair e, portanto, conseguir tirar algum proveito.
É um resultado fantástico!
Percebo que as pessoas que em um primeiro momento não captaram o objetivo, têm a liberdade de tentar digerir o assunto ou mesmo de procurar seu caminho em outro lugar.
Enquanto outras logo captam as pérolas e se mantêm avançando.
Qual o ponto dessa história?
Dependendo do temperamento do estudante, ele não consegue sozinho se envolver com o mundo da música.
(Aliás, é um universo e não apenas um mundo)
Isso faz com que necessite de amizades que entendam desse universo.
É uma necessidade de conversar, de trocar experiências sobre o assunto.
A primeira tentativa quase sempre é de envolver familiares.
Quase sempre essa é uma tentativa frustrada.
A intimidade familiar pode fazer com que não nos levem a sério.
Aí é preciso da estratégia de encontrar pessoas que te entendam.
Tente envolver os amigos.
Se não deu certo, provavelmente é necessário buscar novas amizades.
Não é um negócio trivial de se fazer, mas comece pelos lugares que você frequenta.
(O que exige o abandono do comportamento de eremita musical 😛 )
O fato é que algumas pessoas precisam disso, principalmente pra reforçar seu ânimo e seu entendimento da “mentalidade” musical, e não porque são “carentes”. O importante é nunca forçar a outra pessoa, pois como mostra meu exemplo particular, forçar não apenas é inútil, como aborta qualquer chance da outra pessoa entender. Nada me deixa mais com a sensação de dever cumprido do que ver alguém que pegou minhas explicações.
Aqui está um exemplo de uma aluna que juntou algumas partes:
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Vou ter prova bimestral com banca e no auditório novamente; já estou relembrando do dane-se, tanto faz.
Mas, como bem você falou, no Brasil o processo de alfabetização no piano é precário. Estou tendo que me virar para preencher as lacunas: a soltura e independência dos 3º e 4º dedos, a independência das mãos, a busca pela sonoridade, o desenvolvimento do ouvido, da atenção… Em fim, são muitos desafios!
O mais interessante, é que tenho você na minha mente também, junto da minha professora daqui! Seus ensinamentos tem me acrescentado muita qualidade, trabalhado a questão da resolução de problema, de estudar com a razão e sem “chororô”, as questões técnicas, as questões da ansiedade (descobri que vou deixar de ser cabeça-de-manjar!!! KKK)…
Sobre os acréscimos dos estudos de piano, você está coberto de razão, como tem me feito melhorar. Sou acelerada demais, mente agitada, sempre fui. Agora, estou num processo de autoconhecimento; trabalhando e buscando a calma, paciência e tranquilidade; além da segurança. Tenho melhorado como pessoa, comigo mesma. Isso está me fazendo muito bem; ainda que o aprendizado do instrumento não seja fácil. Mas, todo o processo tem me trazido a perseverança e a insistência também!!! rsrsrs
Me dá vontade de sempre responder a todos os emails, mas sei que não é viável.
Contudo, te escrevi esse monte porque você também dá essa abertura e já sinalizou que lê.
Obrigada por tudo!
Abraços,
Michela Marques
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Pode até ser que se o estudante parar com aquele chororô do “ahh, ninguém me entende”, ele acabe conseguindo convencer algumas pessoas próximas que a música é algo mais maravilhoso do que parece.
(Nota: Você acha que está pronto pra dar o primeiro passo em direção ao piano? Então cadastre-se no Minicurso de Piano Para Iniciantes. Cadastre-se aqui.)
Não esqueça de lembrar
Qualquer um que fale sobre os benefícios de estudar música, vai comentar sobre a capacidade de ativar a memória…
Sobre como a música exige que nossa memória trabalhe…
E, portanto, acabe ficando mais poderosa.
Mas é difícil encontrar alguém que explique como fazer isso direito.
“– Ah, basta decorar, isso já ativa seu célebro” (sic)
Bem, é mais uma maneira cabeça-de-pudim de se envolver com música. É mais um motivo de pensar que basta “força de vontade” e tudo pode acontecer, então é só fazer uma força danada pra decorar as músicas, lições, relações, sons, intervalos, fórmulas e BUM, tudo se resolve. É mais um motivo pra sentir que está fazendo um esforço monstro, que não está saindo do lugar e que, portanto, não tem jeito pra música ou piano.
Não tenho nada contra fazer força…
Desde que seja com os dedos, pra ativá-los e ganhar liberdade técnica.
Agora, pra memória é preciso outra coisa.
Não basta repetir “– Tenho de lembrar! Tenho de lembrar! Tenho de lembrar!”
Que é o mesmo que dizer “Por favor, memória, não esqueça de lembrar das coisas!”
Dá pra perceber o quanto isso é ridículo?
Bem, das tantas coisas que já falei sobre mentalidade e como encarar e organizar uma rotina, enfim, como preparar o time pra entrar em campo e jogar com objetividade, sem depender exageradamente da sorte, acho que muitos estudantes, principalmente aqueles que já tem material de estudo na mão, podem se beneficiar de mais esta:
Assista aos dois vídeos abaixo.
Um é continuação do outro.
São dicas voltadas pra melhorar a capacidade de memorização.
Assim você tem algumas idéias alternativas à dar marretadas no célebro (sic).
Parte 1:
Parte 2:
(Nota: Se você é um estudante intermediário de piano e sente que está empacado no aprendizado, faça seu cadastro pra receber o conteúdo Como Criar Exercícios Para Piano! Cadastre-se aqui.)
3 mitos sobre a independência das mãos
Nesta semana, enquanto aguardava na fila do mercado, algo muito familiar aconteceu:
Um senhor puxou papo comigo e acabou perguntando qual era o meu trabalho.
“– Pianista” respondi.
E o senhor retrucou:
“– Ah, tentei tocar na juventude, mas não tinha habilidade nenhuma, nunca consegui fazer com que as mãos fizessem coisas diferentes”
(Acreditem, isso acontece 4 ou 5 vezes por mês)
Na mesma hora lembrei de 3 mitos sobre a independência das mãos.
(E tem mitos pra todos os níveis, de iniciantes a intermediários)
1) Mito: “É necessário dom pra conseguir dar trabalhos diferentes para as mãos”
Besteira!
Esse mito se resolve com o ditado “ninguém nasce sabendo”.
Claro que nascem pessoas com mais capacidade do que outras.
Mas não é uma habilidade que precise existir antes de começar a aprender.
2) Mito: “É necessário ‘dois cérebros’ pra conseguir”
Outra besteira!
Você não precisa dividir a atenção entre as duas mãos.
Você precisa treinar a sua atenção a se concentrar no trabalho entre elas.
E isso é mais fácil do que parece.
Fale em voz alta os momentos de tocar:
“Direita!”
“Esquerda!”
“Junto!”
E como organizar e dar uma sequência didática pra esse estudo?
Basta seguir as lições dadas no “O Pianista Aprendiz” aqui:
https://www.aprendendopiano.com.br/pianista-aprendiz/
3) Mito: “É necessário exercícios técnicos complicadíssimos pra desenvolver independência avançada”
Claro, o que eu disse antes é o início do estudo.
Você começa fazendo essa trabalho de coordenação, mas não precisa parar por aí.
E muito intermediários perguntam:
“Você pode me ensinar exercícios avançados de coordenação?”
Exercícios são importantes, mas, em determinado nível, a independência não precisa de mais desenvolvimento motor pra ser melhorada, o que é necessário é treinar ainda mais sua atenção pra ser capaz de controlar um cenário mais amplo do que está acontecendo musicalmente.
E não existe nada melhor pra isso do que a polifonia.
E assim cai por terra mais uns pré-conceitos.
Se você precisa aprender a resolver essas dificuldades técnicas, como a independência das mãos e muitas outras…
Inscreva no “O Pianista Aprendiz”.
Aqui estão todos os detalhes:
https://www.aprendendopiano.com.br/pianista-aprendiz/
O som da inevitabilidade
Vamos encurtar uma história longa:
Estava tudo certo pra que eu mudasse de casa, já tinha até combinado com a empresa que faria o transporte do piano, mas, como era de se esperar, alguma burrocracia impediu que o contrato de aluguel fosse assinado. E assim eu volto a estaca zero. A saga de encontrar outro lugar ideal, recomeça.
Essa sina de quem mora de aluguel, me fez pensar em algumas que o estudante de piano passa.
A primeira é com certeza encontrar um professor…
Ou quem sabe é procurar por um instrumento?
Eu não saberia dizer qual das perguntas “esse é o professor/material certo?” ou “esse instrumento é bom mesmo?” é feita primeiro. O fato inegável é que quando você pensa que ela está resolvida, logo logo ela volta a incomodar.
É inevitável.
É como um tema de uma sinfonia que volta e volta.
Depois disso o estudante está pronto pra enfrentar suas próximas dúvidas inevitáveis:
– Estou avançando corretamente?
– Esse negócio que estou fazendo é música mesmo?
– Quando vou entender melhor o que estou fazendo?
– Quando vencerei essa dificuldade?
Assim acumulam-se dúvidas e dificuldades que podem fazer voltar as duas perguntas primordiais:
“– Esse professor/material está me ensinando mesmo?”
“– Não é esse instrumento que está me impedindo de avançar?”
Enfim, o teor das dúvidas pode variar um pouco e nem sempre são encaradas de maneira ansiosa, mas o ponto importante que o estudante de piano precisa aprender de uma maneira ou de outra, é que existem certos “patamares” de segurança ao piano. Se o estudante está com um bom material em mãos, se está com a rotina correta, então ele vai aos poucos aumentando seu grau de segurança.
Isso nunca acontece como uma onda repentina.
Ninguém passa a entender onde está e pra onde vai de uma hora pra outra.
Assim como quem vive de aluguel sabe que precisa de várias tentativas até conseguir pegar a chave da nova casa, mas que logo a novela recomeça, o estudante de piano tem que saber que vai passar de patamar em patamar, mas sempre existe algo a conquistar.
Qual seria a motivação pra continuar estudando, se tudo fosse rápido e repentino?
Simplesmente não valeria a pena.
(Nota: Você acha que está pronto pra dar o primeiro passo em direção ao piano? Então cadastre-se no Minicurso de Piano Para Iniciantes. Cadastre-se aqui.)
Situação do estudante intermediário no Brasil…
“Um músico superficial não executa sua arte com planejamento, ele simplesmente vai pra música sem se preocupar com nada além do que o próprio sentimento — o que no caso é apenas uma impressão vaga, sem forma, sem objetivo, e com um puro sensualismo sentimentalista. Seu acompanhamento afoga a melodia, seu ritmo é complacente demais, dinâmica e outras propriedades artísticas tornam-se histéricas. Mas nada disso importa, porque ‘ele sente’. Na verdade constrói uma casa em que o porão está no teto e o sótão no subsolo”
Essa é uma das opiniões do maestro Josef Hofmann.
Dito por alguns como um dos melhores pianistas do séculos XX, e por outros como uma das maiores mentes musicais da época, embora criticassem bastante seu estilo.
Mas mesmo seus críticos dizem que é um grande mestre.
E sua visão sobre os problemas de um estudo superficial não poderia ser mais certa.
Principalmente de quem se diz “estudante intermediário” no Brasil.
Se alguém decide em algum ponto na sua vida:
“Bem, está na hora de aprender a tocar algum instrumento…”
Então é quase inevitável que busque uma maneira “branda” de seguir o aprendizado.
Quem sabe aprender uma música aqui outra ali…
Conseguir lidar com alguns acordes…
E algumas partituras simples.
Sei que a sensação de produzir música é maravilhosa, não importa como.
Mas sei também de algumas coisas a mais:
Assim como é praticamente inevitável que alguém que, em idade madura, procure estudar um instrumento, busque uma maneira indolor de aprendizado, também é praticamente inevitável que essa mesma pessoa se recuse a repousar no resultado que conquistou. Não é errado dizer que música é uma arte infinita (ou pelo menos muito ampla). Existe sempre algo a se conquistar.
Se não fosse assim, ninguém teria motivos pra dedicar 30, 40, 50, 60 anos nisso.
É aqui que a bola de neve de problemas acontece.
Aquela “emoção” que esse estudante sentia, passa a ser o condutor do seu estudo.
Ele tenta avançar tendo essa sensação como guia.
E, claro, porque está 10 anos nessa atividade, se considera um “intermediário”.
Foi isso que o maestro Hofmann chamou de “músico superficial”.
Com esse aprendizado construído na areia, o músico tenta avançar sem ter as habilidades sedimentadas.
Mas ele não sabe realmente o que fazer.
(“…sem planejamento”)
Não sabe dar valores objetivos a sua execução.
(“…as propriedades artísticas tornam-se histéricas”)
Por isso o apego ao que ele sente.
(mesmo que o “porão esteja no teto”)
Se “sentiu” que está bom, então está bom…
Mesmo que esteja uma bela porcaria.
Por isso o estudante deve estar atento aos princípios ensinados pelo professor.
(Nota: Se você é um estudante intermediário de piano e sente que está empacado no aprendizado, faça seu cadastro pra receber o conteúdo Como Criar Exercícios Para Piano! Cadastre-se aqui.)
Como combater a ansiedade musical
Depois que falei sobre o modo cabeça-de-manjar de estudar piano, alguns me perguntaram como combatê-lo.
O que fazer pra não se deixar levar por essa ansiedade…
Por esse desejo de alcançar um nível de perfeccionismo irreal?
Bem, hoje dia a “ansiedade” virou uma doença por si mesma.
Não sei o que uma pessoa que sofre disso pode fazer. Provavelmente ela tem de ter uma mudança geral na vida. Algo que transforme a própria visão de como conduzir as coisas. Na música, eu só conheço uma maneira de combater essa expectativa maluca.
E o remédio está neste relato do meu aluno Maurício:
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Oi Felipe,
Eu fico ensaiando as peças de Chopin do lado da minha sogra velhinha que está. Ela fica maravilhada. kkkkkkk. A minha esposa já diz assim: já vai fazer teu plic-plic. A gente dá risada juntos. Ela gosta também!!!Eu fico consciente do que sai ali e sei que muito tem que melhorar. Mas o piano ali é uma novidade na vida delas como pra mim também. Aproveito todos os dias pra ensaiar e as músicas estão melhorando. Tua presença existe quando estou tocando, sempre dizendo: ” – Melhore aqui!, Não aqui tem que praticar mais! Tá melhorando!, Aqui tá ruim, articula mais!!!, entre outros. Rsrsrs
Um abração.
Mauricio Goulart
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Aí está!
Não, o remédio não é o plic-plic 😛
Nem o treino diário.
Nem a felicidade de fazer toda a família participar.
O remédio está em ter o professor instalado na sua cabeça.
Utilizar a imaginação pra criar metas fantasiosas e se perder no sonho de alcançar um resultado que você nem mesmo sabe se é alcançável, é fácil. E é essa mesma facilidade criativa da imaginação que você vai utilizar pra combater esse manjar que você criou.
Você carregará as orientações do professor na cabeça.
É trabalho do professor indicar o que você precisa fazer.
Então basta que você deixe o professor fazer seu trabalho.
O Maurício teve o azar de ter este ditador que vos escreve como assombração imaginária…
Sem problemas!
O gosto do remédio não importa, mas sim sua eficácia, certo?
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Mantendo alta a probabilidade de você aprender piano
Esqueçamos qualquer opinião que já dei sobre treino diário de piano.
E vamos perguntar à “Lei dos grandes números” como podemos entender nosso aprendizado.
De acordo com essa lei de probabilidades, é necessário um grande número de observações de um fenômeno pra que seja crível alcançar um número médio de resultados. Mas o quê!?! Que droga isso significa? Vamos utilizar o exemplo mais famoso de todos:
A rotina de um cassino.
Se alguém, burro o suficiente pra fazer isso, analisar apenas UMA rodada de jogos, exatamente naquele momento em que a maioria das máquinas do cassino perderam dinheiro, poderia exclamar:
“– Os donos de cassino só tomam prejuízo!”
Com bom-senso, e utilizando a Lei dos grandes números, esse sujeito dever fazer o seguinte:
Analisar um grande número de rodadas.
Assim ele garante uma média confiável do que acontece no cassino.
E que raios isso tem a ver com treino diário de piano?
Vamos considerar dois personagens:
Um totalmente iniciante no piano…
E um outro que já toca e está tentando resolver algum problema pianístico.
(Cada um a sua maneira, são dois iniciantes)
Se o totalmente iniciante começa a estudar e depois de dois dias larga tudo e sai correndo e berrando no meio da rua “– Eu não consigo! Piano não é pra mim! Que coisa é essa… não aguento mais! Só quem nasce com dom mágico consegue fazer isso!”….
Ou se o intermediário, quando começa a tentar resolver a dificuldade, deixa o sangue ferver e dá socos no instrumento e socos na própria cara, rasga as vestes e escreve uma carta de suicídio colocando toda a culpa dos seus problemas no trecho que ele não conseguiu resolver…
Pense bem…
Eles estão agindo exatamente da mesma maneira que o sujeito do cassino.
Simplesmente eles não chegaram a uma média confiável de tentativas antes de entrar em desespero.
E aqui está a beleza do treino diário:
Você não apenas aprende mais e melhor o instrumento, mas é capaz de conhecer mais e melhor o seu próprio jeito de aprender, podendo potencializar cada vez a maneira de encarar o estudo, ganhando muito em eficiência.
Isso sim é manter alta a probabilidade de se desenvolver.
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Morte aos cabeças-de-manjar
Um tempo atrás li algumas coisas sobre os exorcistas do Vaticano.
Não me interessa se você acredita ou não neles, a parte importante e significativa é que um dos objetivos do exorcista é fazer com que o demônio revele seu nome. Assim que ele consegue isso, sabe como poderá combatê-lo.
Muito alunos tem feito algo análogo ao combater o modo “cabeça-de-pudim”.
Agora eles tem um nome pra dar ao problema, portanto podem combatê-lo.
Hoje apresento um novo nome de um inimigo a ser combatido até a morte.
É o modo “cabeça-de-manjar”.
E, veja que interessante, não fui eu que inventei isso.
Foi minha aluna Marina Guerra.
Nesta semana ela me mandou uma mensagem interessantíssima, que ainda vou aproveitar muitas partes, mas que hoje destaco os dois tópicos abaixo.
O contexto é que ela descrevia a sua melhora ao entrar em contato com meus materiais.
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* Quando eu começava uma nova música eu não tentava tocar a partitura até o final sem parar, porque meu superego perfeccionista sugava minha própria coragem e dizia ” Ou a coisa sai perfeita ou nem tenta” e eu desistia antes mesmo de começar. Por isso, não tinha uma visão geral sobre quais partes seriam mais nível hard, deixava de estudar as passagens mais complicadas separadamente, tinha sempre que começar tudo de novo quando errava (um pseudo-TOC).
* Eu estava ”descompassada” no sentido de que não criava um envolvimento fora do instrumento com a música que estava aprendendo, não estudava a partitura solfejando, não ouvia interpretações de vários pianistas percebendo as sutilezas de cada interpretação, na verdade o que eu fazia era criar elo de escuta diária selecionando outras músicas que ainda não estava aprendendo e ficava ansiosa por começar a aprender estas, pulando de partitura em partitura sem terminar, uma fase bem cabeça-de-pudim, ou ao menos cabeça-de-manjar.
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(São apenas dois tópicos da mensagem dela, temos ainda o triplo disso pra explorar!)
Se o modo cabeça-de-pudim é aquele modo relaxado, que não quer entender qual é o trabalho e o faz de qualquer jeito, estudando largado como se estivesse no piloto automático…
Então o modo cabeça-de-manjar, que é mais vistoso e bem elaborado, trata-se desse perfeccionismo inventado.
É buscar um ideal de perfeição que o aluno não sabe definir qual é…
Ou não sabe o que fazer pra chegar lá…
Ou ainda que está na cabeça dele e mais nenhum outro lugar.
Veja que os dois modos são lados diferentes da mesma moeda.
Estudar como se estivesse de férias na praia, não leva a lugar nenhum.
Assim como estudar cheio de preocupações e metas absurdas, dessas que servem apenas pra aumentar a ansiedade, também não leva.
Todos têm momentos cabeça-de-pudim ou cabeça-de-manjar.
Mas, agora, tendo o nome deles, fica mais fácil entender o caminho do meio.
(Nota: Nunca encostou em um piano? Então cadastre-se no Minicurso de Piano Para Iniciantes. Cadastre-se aqui.)







