Antes de comprar qualquer curso de piano
Um mapa para quem está perdido entre tantas opções
Você quer aprender piano e está pesquisando qual curso comprar.
O problema é que todos parecem dizer a mesma coisa, e sem nenhum critério para distinguir um do outro, você fica olhando para uma lista de opções sem saber por onde começar.
Deixa eu te ajudar a organizar isso.
Existe uma primeira categoria que são os aplicativos, como o Simply Piano. O bônus é a facilidade e a leveza, são coloridos, gamificados, te dão estrelinhas quando você acerta e qualquer pessoa consegue começar sem nenhuma barreira. O ônus é que são essencialmente brinquedos. Divertidos, mas brinquedos. Não vão te ensinar a tocar nada de verdade.
Existe uma segunda categoria que são os cursos de acordes para música popular. O bônus é que você consegue algum primeiro resultado rápido e pode ser uma introdução válida para quem quer apenas acompanhar alguém cantando numa reunião de amigos. O ônus é que depois desses primeiros dias você percebe que chegou num limite e que o resultado que consegue produzir é muito pobre. Não é um caminho para desenvolver agilidade ou conhecimento musical mais profundo.
Existe uma terceira categoria que são os cursos que se apresentam como “completos”. O bônus é que te dão uma visão ampla do que é o estudo do piano, tocando em teoria, técnica, leitura e repertório, e podem ser úteis para quem quer primeiro ter uma ideia geral de tudo. O ônus é que, por terem uma pretensão muito grande, acabam passando por cima de muita coisa. Não é que não aprofundam nada, é que o resultado acaba sendo uma amostra rápida de cada assunto. As pessoas ganham uma visão do que é o estudo do piano, mas não aprendem de fato a tocar.
E existe uma quarta categoria, que é bem diferente da terceira justamente porque não tenta cobrir tudo. São cursos que escolhem um objetivo realista e alcançável para quem está começando, dividem o aprendizado em etapas e protocolos com uma clareza de passo a passo presente em cada momento do estudo, e vão fundo naquilo a que se propõem. O bônus é que, por não tentarem fazer absolutamente tudo, conseguem te dar o essencial para começar de forma organizada, com resultado concreto e consistente. O ônus é que seu estudo musical vai continuar depois deles, eles não pretendem encerrar tudo que você pode aprender sobre música.
Dessa quarta categoria eu conheço apenas um representante, que é o Do Zero à Pour Elise. Na minha experiência com milhares e milhares de adultos que começaram por esse caminho, é a abordagem que mais tem dado resultado.
Se você quer conhecer esse caminho:
https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/
A Dança Invisível
O termômetro que ninguém te contou.
Nunca tinha percebido que música clássica tinha isso quando era bem tocada.
Tinha um “balanço”.
É claro que, pensando melhor, o balanço sempre esteve lá quando escutava um grande músico. Mas só naquele momento eu entendi.
Foi em um recital da pianista Maria João Pires no Théâtre des Champs-Elysées em Paris. Ela estava tocando o movimento lento da Sonata Op. 31 nº 2 “Tempestade” de Beethoven.
Sentado na plateia eu percebia que meu corpo queria balançar como um pêndulo, de um lado para o outro.
Aquilo no fundo era… dançar.
Eu queria dançar instintivamente escutando a Maria João Pires tocar a Tempestade de Beethoven.
Quem é que quer dançar ouvindo a Tempestade de Beethoven? Não me lembro de ter ouvido ninguém comentar isso. Mas é um fenômeno real.
Quando o pianista é bom, algo na gente é embalado quando o pulso é marcado com clareza. Aí o corpo pede para dançar.
Olha só que termômetro maravilhoso.
Grave-se tocando alguma coisa e se pergunte:
Me dá vontade de dançar?
Se não dá, procure estudar imaginando como alguém dançaria aquilo que você está tocando e dance internamente.
Aí você estará no caminho certo.
Tem uma pianista que mostrei ontem no YouTube que ilustra tudo isso de um jeito que você não vai esquecer.
Quer ver?
A escada que ele nunca conseguiu subir
O que nenhuma força de vontade consegue fazer sozinha
Em Vertigo, de Hitchcock, o detetive Scottie Ferguson tem vertigem.
Uma vertigem que paralisa, que distorce a realidade e que num momento decisivo o impede de salvar a mulher que ama.
Ele tenta enfrentar sozinho. Trava.
O medo é grande demais para ser vencido pela determinação. E Scottie passa boa parte do filme deixando esse trauma ditar o que ele pode e não pode fazer.
Até que algo maior do que o medo aparece:
O amor por Madeleine e a necessidade de entender o que realmente aconteceu.
Uma força que vem de fora dele, que o organiza por dentro e o carrega além do ponto onde sempre travou.
É só com esse motor externo que ele consegue subir a torre.
Ele já tinha tentado antes, conhecia cada degrau daquela escada, sabia exatamente onde as pernas travavam. A escada era a mesma. O que mudou foi a presença de algo do lado de fora, capaz de reorganizar tudo por dentro.
Muitos adultos que chegam até mim carregam uma cena parecida.
Sentaram ao piano com vontade genuína. Tentaram seguir o método, repetir os exercícios e avançar nas peças.
Mesmo se esforçando, a música não saia. As mãos travavam, a continuidade nunca aparecia, e o estudo foi perdendo sentido até que, um dia, o piano ficou fechado.
Essa cena ficou guardada como uma verdade sobre eles.
O ensino tradicional de piano foi construído para crianças com tempo ilimitado e um professor do lado corrigindo cada nota.
Um adulto aprende pela lógica, precisa entender o que está fazendo, precisa saber onde está e para onde vai. Dentro de um método que ignora isso, ele senta ao instrumento e fica sozinho, exatamente como Scottie estava sozinho diante da torre.
O que muda quando existe uma estrutura pensada para o modo como um adulto aprende é que cada momento do estudo passa a ter um sentido claro.
O aluno sabe o que repetir, onde colocar a atenção, por que está fazendo o que está fazendo.
Essa orientação é o motor externo. É ela que carrega o aluno além do ponto onde sempre parou.
Se você tem uma cena guardada, talvez seja hora de subir a torre de novo:
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O dia bíblico
Cada peça nova que um aluno começa a aprender tem o ciclo de um dia bíblico.
Primeiro ele tenta as mãos separadas. Consegue ler as notas, mas o ritmo fica meio de qualquer jeito — as durações saem imprecisas, a música não flui.
Aí ele resolve juntar as mãos.
Trava tudo.
Parece que dessa vez o obstáculo é intransponível.
Volta para as mãos separadas. Tenta resolver mais coisas por ali. Volta para as mãos juntas.
Ainda não sai nada que pareça música — porque, além dos erros, ele é obrigado a pausar a cada momento para conferir o que cada mão deve fazer, e isso mata qualquer continuidade.
Bate o desânimo. Ele está numa noite sem lua.
Insiste, insiste. Os dias passam e as coisas parecem não sair do lugar.
Mas então, um belo dia, ele tenta de novo bem devagar — e percebe que as mãos já estão indo um pouco sozinhas, de tanto que repetiram os trechos. Algo mais contínuo começa a aparecer. O sol está nascendo.
A verdade é que ele não fez nada de especial para as coisas mudarem. Apenas insistiu. Bateu numa porta fechada tantas vezes que alguém, do outro lado, começou a abrir.
Entender algo é um mistério. Um professor que tive costumava ir dormir com uma dúvida e acordar com a resposta. Aconteceu comigo inúmeras vezes. Não é um processo que se descreve passo a passo — ele simplesmente acontece, desde que a pessoa continue batendo na porta.
E bater na porta é estudar de forma consciente, atenta e com regularidade.
Nunca vi ninguém fazer isso por um tempo e não conseguir aprender.
Nunca vi.
Quer aprender a bater nessa porta sem perder tempo?
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A roupinha velha
As mulheres passam muito pela seguinte situação:
Alguém elogia a roupa que estão usando e, em vez de dizer que é nova, que custou caro, que ficou pensando bastante no que vestir, elas dizem que pegaram a primeira roupinha que viram, que aquilo já é velho e que não é nada demais.
Eu sei que não dá para ser brutalmente sincero em absolutamente tudo.
Mas o exemplo ilustra bem o que acontece também com os pianistas.
Muito pianista famoso adora dizer que não precisou estudar tanto assim para tocar determinada peça. Que deu uma olhadinha rápida na partitura, uma conferida ligeira, e o que saiu foi algo espontâneo, sem muito esforço.
Mentira.
Estudou bastante, sim.
Claro que existem pessoas com um talento fora do comum, que realizam certas coisas mais rápido do que outras. Mas mesmo essas acabam estudando muito para tocar do jeito que a gente escuta num concerto ou numa boa gravação.
Lembro sempre de um documentário sobre o pianista Sviatoslav Richter em que ele dizia que estudava meia hora por dia — e corta para a sua mulher dizendo que eram doze horas.
Não se assuste. Você não precisa disso para tocar bem. Richter foi um titã histórico do piano.
Mas uma coisa é verdade: é preciso regularidade. É preciso um certo tempo todo dia.
Não caia no conto do gênio que não precisou estudar nada. Ele estudou muito e não está querendo revelar — ou está tocando algo que, para ele, é de fato simples. De maneira geral, se está tocando uma peça importante, houve disciplina. Houve tempo no piano. Todos os dias.
Então pare de acreditar que se algo não está saindo é por causa do talento, da idade ou da fase da lua.
Eu tenho a convicção de que o que bloqueia a maioria das pessoas é sentar ao piano e não saber o que fazer.
Não saber por onde começar, o que repetir, onde colocar a atenção. Sem essa orientação, qualquer disposição para estudar evapora rápido.
Não por preguiça, mas porque estudar sem direção é um absurdo.
E a gente acaba se recusando a ficar fazendo coisas absurdas.
Orientar o aluno nesse sentido — para que ele nunca fique perdido diante do instrumento — é um dos objetivos centrais de todos os meus cursos.
Disciplina é consequência de um sentido claro para se fazer o que se faz.
Se quiser ser orientado de forma que te leve a ser disciplinado porque não te deixa perdido:
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A peça crush
Uma das coisas mais prazerosas que existem no piano é ter uma peça crush.
Sabe o que é isso?
É aquela peça que você ainda não toca, mas que sonha em tocar.
Que você talvez já tenha procurado no YouTube várias vezes só para ouvir de novo, como quem passa na frente da casa de alguém que gosta.
Essa peça faz algo muito importante: ela te dá um destino, um alvo.
Em música, ter o destino é ter o combustível.
Ele é o que faz o estudo deixar de ser uma obrigação árida e passar a ser o caminho para um encontro que você está ansioso para ter. Como quem se prepara durante semanas para um jantar com alguém especial: escolhe o lugar, pensa no que vai dizer, cuida de cada detalhe.
A peça crush funciona assim.
Você estuda porque quer conquistá-la.
Agora, se você ainda não tem uma, se nenhuma peça ocupa esse lugar nos seus sonhos mais íntimos, a primeira tarefa é encontrá-la.
E essa busca, por si só, já vale muito.
Porque quando você sai procurando uma peça que te faça sentir isso, acaba descobrindo o repertório do piano.
E o repertório do piano é grande como um oceano.
O que começa como uma busca por uma peça termina encontrando uma coleção de peças.
Você vai encontrar não um crush, mas quatrocentos e noventa cruches.
Isso é o nosso motor musical.
A locomotiva do estudo não pára quando você tem paixão pelo destino. Ela pára quando o destino some, quando o estudo vira um conjunto de exercícios sem nenhuma peça dos sonhos esperando do outro lado.
Então, se você ainda não tem a sua, é hora de se apaixonar perdidamente.
Se quiser chegar lá com a minha orientação:
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O homem que não se conhecia
Como seria bom se fossemos como a Eva de O Paraíso Perdido.
Ela viu sua imagem em um reflexo à beira de um lago e ficou encantada, maravilhada. Quando encontrou Adão, não achou tudo isso. A imagem dela, convenhamos, tinha sido bem mais simpática.
Mas… não tem tu, vai tu mesmo.
Também não reclamaríamos de ter sido Narciso, que se apaixonou por si mesmo quando se viu, de tão belo que era.
No piano, quando nos ouvimos em gravação, a reação típica é querer soltar uma bomba de fumaça e sumir como um ninja.
Nossa imagem sonora real não costuma nos agradar. Tem tanta coisa errada ali que fica difícil nomear o problema.
Mas não vou dizer que se gravar é condição sine qua non para se tornar um bom pianista, seria uma contradição total. A maioria dos grandes músicos do passado nunca pôde se ouvir porque essa tecnologia não existia. Beethoven, Mozart, Chopin, Bach, nenhum deles apertou o play em si mesmo uma vez sequer.
E ainda assim estão entre os maiores que já existiram.
Certamente a capacidade de entender o que se faz está para além da possibilidade de se testemunhar fazendo. Comparando a música com as palavras, é fácil perceber que entender o significado de uma palavra com profundidade é mais valioso e vai te dar maior poder de comunicação do que se ouvir pronunciando-a sem entendê-la tão bem assim.
Em música é a mesma coisa.
Mas também não dá pra negar que dar uma ouvidinha em como você toca vai te ajudar a corrigir coisas muito valiosas.
Ouvir a si mesmo ao piano é como entrar num provador com espelho de três lados, aquele espelho de alfaiataria que te mostra de frente, de lado e de costas ao mesmo tempo. De repente você está vendo ângulos de si mesmo que nunca existiram antes.
Algumas coisas você resolve sozinho. Percebe que está com a roupa do avesso, que o zíper ficou aberto, que a meia é branca e o sapato é preto — e a não ser que você esteja pronto para um moonwalk e umas piruetas, isso provavelmente não é o visual mais elegante do mundo.
Outros problemas são mais sutis. Algo no caimento não está certo, mas você não sabe dizer se é o corte, a costura ou a sua própria postura.
É aí que o alfaiate entra:
Ele olha para o mesmo espelho e imediatamente sabe o que está vendo, onde ajustar e o que é problema de corte e o que é problema de quem está dentro da roupa.
Esse alfaiate é obviamente o professor.
Eu me gravo constantemente e isso me poupa horas de busca cega ao piano. Você pode comparar a execução de hoje com a da semana passada, ouvir onde a mão direita engoliu uma nota que você tinha certeza que havia tocado. Isso é valioso demais.
A estranheza inicial passa. O que fica é uma das ferramentas mais poderosas que um pianista pode usar.
E que está no seu bolso agora mesmo!
Se você ainda não tem o hábito de se gravar, vale começar para finalmente se conhecer tocando e evoluir muito a partir disso.
Quer dar esse primeiro passo com orientação?
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O pianista e a maquiagem
É impressionante como a nossa impressão de nós mesmos é falha.
No piano isso se reflete de uma maneira muito evidente.
A coisa mais comum que acontece com um iniciante é achar que está tocando com expressividade quando na verdade está tocando igual à voz do Google fazendo uma declaração de amor.
O professor diz que determinado trecho é para ser tocado forte e o aluno pode jurar que está tocando forte o suficiente no momento indicado.
O professor diz que aquela outra parte é bem leve e o aluno acredita que está fazendo leve o suficiente também.
Eu também sempre sofri disso e lembro de uma vez levar uns empurrões nas costas de um professor me indicando para tocar mais forte.
Foi uma cena muito engraçada.
Eu havia me separado de uma namorada e estava todo triste e, sabendo disso, enquanto eu tocava, o professor me dava empurrões e proferia “elogios” à moça para ver se a minha ira ajudava a conseguir de fato tocar forte tanto quanto era necessário naquele trecho.
A verdade é que para quem está tocando, o forte e o leve estão bastante aparentes. Mas para quem está de fora — e especialmente para quem está a uma certa distância do instrumento — está tudo soando igual.
Outro grande professor dizia que as diferenças de intensidade para o músico eram igual à maquiagem para o ator.
Se você já foi a uma peça de teatro, ao olhar um ator no palco tem a impressão de que ele não está usando maquiagem nenhuma no rosto, parece estar natural.
Mas se por acaso tivermos a oportunidade de ver esse mesmo ator de perto, após a peça, vamos notar que ele estava todo maquiado — de maneira até exagerada. Tudo isso para, do palco, passar simplesmente uma imagem de algo vivo.
O aluno de piano precisa desde o início ir se acostumando a fazer o forte e o piano (leve) bem diferentes e até um pouco extremos, para poder aos poucos ir limpando e chegar na medida certa. Mas o melhor é começar com uma generosidade na dose.
Quer começar a aprender já entendendo como a sua música ganha vida de fato?
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O presente que eu nunca recebi
Tenho me deparado com muitos vídeos de crianças identificando notas no segundo em que ouvem. E tem um cantor e compositor americano chamado Charlie Puth que identifica a nota de qualquer barulho aleatório: porta batendo, buzina de carro, o que for.
Isso se chama ouvido absoluto.
É a capacidade de ouvir um som e saber imediatamente o nome da nota, sem precisar de nenhuma referência.
Da mesma forma que você olha para o céu e sabe que é azul sem comparar com nada, quem tem ouvido absoluto ouve um Dó e simplesmente sabe que é um Dó.
Tenho duas alunas que têm isso. É impressionante de verdade.
Claro que é uma vantagem enorme. Muita gente tenta amenizar dizendo que não tem relação com a sensibilidade musical real da pessoa — e isso é verdade — mas não dá para negar que é um presente e tanto.
Um presente que nós, reles mortais, não recebemos.
O que nos resta?
Trabalhar o ouvido relativo: a partir de uma nota dada, identifico as outras por saber como soam os intervalos.
Um truque clássico é associar cada intervalo ao início de uma música conhecida. O hino nacional brasileiro começa com uma quarta justa. Então se quero saber como ela soa, canto mentalmente o hino e a nota aparece na cabeça.
Mas por que estou falando sobre isso?
Porque não é por você não ter uma condição especial que você não pode aprender da mesma forma.
Seu gosto, sua imaginação, seu discernimento do que vai emocionar quem está te ouvindo, não vem no pacote do ouvido absoluto. E pode ser sempre desenvolvido.
Não deixe que um aparente obstáculo te impeça da riqueza que é tocar piano.
Nunca se esqueça de que o compositor mais marcante do século XX, Igor Stravinsky, não tinha ouvido absoluto.
Se quiser começar agora mesmo, sem depender de nenhuma facilidade que não seja ter um cérebro funcionando e cinco dedos em cada mão:
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Tem uma música na sua cabeça agora?
Músicas grudam na cabeça.
Não todas da mesma forma, mas qualquer pessoa já passou pela experiência de ficar com uma melodia tocando na sua cabeça e perceber que ela simplesmente não vai embora.
Música porcaria tem um poder especial nesse caso. Ela invade a sua cabeça como uma espécie de ladrão. Num ponto em que eu talvez já nem diria que ela ficou gravada na sua memória. Diria que é um caso de possessão demoníaca mesmo.
A minha tática para os casos mais graves é: não tente suprimir. Não funciona. Nada se destrói, é preciso substituir. Melhor ficar cantarolando uma música boa até a outra ir embora.
Funciona sempre!
Mas às vezes a música que está na cabeça é linda mesmo.
Certa manhã acordei com uma sinfonia de Brahms tocando na cabeça. Fui tomar banho, ela continuava. Li uma notícia, ela continuava. Quando fui fazer o café, percebi que havia passado para o segundo movimento. Ela tinha tocado de forma contínua, sem que eu tivesse feito absolutamente nada para isso.
Isso mostra bem como a nossa cabeça funciona.
Quando você está aprendendo a tocar, o mesmo processo acontece. A cabeça continua trabalhando naquilo que você viu, mesmo longe do piano. Ela vai digerindo, organizando, consolidando — sem que você perceba e sem que precise fazer nada.
O problema é que ela não distingue o que é bom do que é ruim. Ela cristaliza o que foi repetido.
Se a orientação foi correta, o que vai se solidificar será um patrimônio para a vida toda. Se não foi, o que vai se solidificar é um vício — e vício musical é das coisas mais difíceis de desfazer, porque está gravado fundo, automatizado, e parece certo mesmo quando não é.
Se quiser aprender de forma limpa e entender como evitar que vícios se instalem antes mesmo de aparecerem:
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