O piano ama as tartarugas

Existe uma coisa que todo mundo sabe que precisa fazer ao piano e quase ninguém suporta fazer de verdade.

Estudar devagar.

O conselho todo mundo conhece. O problema é que o tempo lento exige uma paciência que a maioria das pessoas simplesmente não tem. 

Ficar ali, nota por nota, num andamento que parece de tartaruga, sem a sensação de que a música está “saindo”, sem aquela satisfação imediata de ouvir a peça acontecer, é mentalmente exaustivo (algumas pessoas até caem no sono ao piano).

O ego também entra em jogo, claro. 

O andamento lento parece uma confissão de que você não consegue. 

Então você acelera antes da hora, erra, volta um pouco, insiste, “saiu mais ou menos”, e sai correndo para o próximo trecho, bola pra frente. 

Uma vez, chegando para uma visita ao Sergei Rachmaninoff, um pianista chamado Abram Chasins ficou parado do lado de fora da porta, escutando. 

Havia alguém praticando o “Estudo em terças” de Chopin, uma das peças mais difíceis do repertório, num andamento tão lento que demorou um bom tempo para reconhecer a peça. 

Uma nota a cada vários segundos! 

Chasins ficou ali parado, esperando por quase uma hora. Quando a porta finalmente se abriu, não havia nenhum aluno. Era o próprio Rachmaninoff.

Vinte segundos por compasso! 

Quase uma hora nesse pique.

O maior pianista de todos os tempos praticando como se estivesse aprendendo a ler.

Quando você estuda devagar, consegue perceber tudo o que está acontecendo: onde o dedo escorrega, onde a mão tensiona sem necessidade, onde o ritmo varia sem que você note. 

Você enxerga o problema com precisão, em vez de passar por cima dele toda vez. 

Aí sim consegue corrigir, em vez de praticar o erro e consolidá-lo.

O paradoxo é que quem tem paciência para praticar devagar aprende a peça mais rápido.

A aluna de Rachmaninoff, Ruth Slenczynska,que faleceu mês passado aos 101 anos, avançava o metrônomo de grau por grau. E mesmo depois de dominar a peça, voltava ao andamento lento regularmente, porque sempre encontrava algo novo para consertar.

O piano ama as tartarugas e geralmente esnoba as lebres.

Se quiser começar assim, desde o início, veja o que preparei para você:

https://www.metodorealdepiano.com.br/zpe/