Acho que já faz um tempinho que não assumo um tom professoral por aqui, então vou invocar tudo o que tenho a ensinar e vamos aos fatos…
Paciência, como todos sabem, é a virtude mais própria de um professor.
Não a paciência pra lidar com a teimosia, mas paciência pra lidar com a ignorância.
Do aluno, a virtude exigível é a humildade.
É a mesma humildade de um paciente pra com um médico.
Ninguém que chega pra um médico e diz “– Doutor, estou com gripe” tem a esperança de que ele simplesmente diga “– Ok, aqui está a receita pra curar a gripe”. O que se espera é que é o médico analise os sintomas, faça alguns exames e utilize sua experiência e intimidade com o assunto pra fazer o diagnóstico de gripe, resfriado, intoxicação, etc, etc, etc.
Então é o seguinte:
O bom aluno tem de dominar uma arte adicional: a arte de fazer perguntas.
Se você tem um professor presencial, você simplesmente mostra o problema.
Agora, virtualmente, onde grande parte do contato é feito por texto, descreva o seu problema e nunca dê o diagnóstico.
Vamos fazer um pequeno teatro.
Eis uma mensagem hipotética que um aluno poderia me enviar:
“Felipe, tenho insegurança na hora de tocar uma peça e me bate um branco absurdo. O que posso fazer pra ter mais controle? Algum exercício de agilidade e fixação das notas? Sei ler uma partitura, mas na hora de executar tudo se embola e fica confuso”
Ho-ho-ho.
Nessa hipotética mensagem, o pretensioso aluno não apenas tentou descrever seu problema, mas também deu o diagnóstico e o possível remédio.
Ok.
Minha resposta hipotética a essa mensagem hipotética seria:
“Preciso que você me explique exatamente o que acontece. Não tente dar uma definição geral, esqueça esse negócio de ‘ajudar a ter mais controle’. Descreva o que acontece. Exemplo: diga qual melodia que você sente este bloqueio. Explique o que acontece quando você tenta fazer tudo mesmo devagar. Desde quando que você está estudando piano? Quanto tempo você dedica aos estudos? etc.”
Acho que isso seria suficiente para o aluno entender o ponto.
Então pode ser que, hipoteticamente falando, o aluno retornasse assim:
“Tenho treinado músicas nas duas claves. Se tocar catando milho até que dá certo, mas se tento fazer considerando o valor das notas e batendo o pé pra contar os tempos, parece que os dedos ficam meio travados. Já me falaram que eu estava tocando fora do ritmo. Também tenho dificuldade em ler ou entender partitura.””
Certo.
Melhorou, mas ainda não está bom.
Pra tentar tirar algum coelho dessa cartola, tento trabalhar com a parte que consegui entender.
E minha resposta hipotética seria:
“Como o que você descreve é algo muito genérico, vamos atacar alguns pontos principais, começando pelo ritmo. Você deve praticar contando os tempos, uma mão de cada vez, muito, MUITO lentamente. Coloque o metrônomo muito devagar. Outra coisa que você pode praticar, e que deve ser feita fora do piano, é bater as notas que estão na partitura (uma das mãos de cada vez, é claro) com um lápis enquanto conta os ritmos em voz alta. Se o seu problema com o ritmo for muito sério, o único remédio existente, e que vai parecer um pouco estranho, é dançar. Seria importante você aprender a perceber com o corpo, instintivamente, o ‘embalo’ rítmico das músicas. Comece seguindo essas recomendações e veremos como se sai”
Bem, tive de ser um pouco homeopata na resposta hipotética…
Dei algumas poucas recomendações pra que seja possível o próprio aluno despertar para o problema.
E assim, com o tempo, junto com o aprendizado de piano, o aluno aprende a ser um excelente perguntador.
(Nota: Se você é um estudante intermediário de piano e sente que está empacado no aprendizado, faça seu cadastro pra receber o conteúdo Como Criar Exercícios Para Piano! Cadastre-se aqui.)






