A peça que estava numa gaveta
Beethoven escreveu nove sinfonias.
Quartetos de cordas que mudaram a história da música ocidental.
Sonatas para piano que pianistas passam a vida inteira tentando dominar.
E a peça mais conhecida que ele deixou é uma que ele nem se deu ao trabalho de publicar.
A Pour Elise ficou numa gaveta.
Foi parar nas mãos de um musicólogo quarenta anos após a morte de Beethoven, que a publicou com base num manuscrito que depois desapareceu para sempre.
Não foi estreada num grande teatro.
Não foi dedicada a um rei.
Aliás, nem sabemos quem é a tal da Elise.
E hoje é, de longe, a música para piano mais conhecida de todos os tempos.
Existe um motivo para isso.
O tema principal oscila entre apenas duas notas — Mi e Ré sustenido — como se estivesse tateando um caminho a seguir.
Mas o caminho é encontrado e a música é doce e firme ao mesmo tempo.
Tudo isso acontece tão rápido, nos primeiros 15 segundos ou menos.
É tudo tão original e bem construído. Faz um sentido tão grande.
Essa parte inicial fica sempre reaparecendo na música.
Tem também uma parte brilhante, com uma enxurrada de notas que parecem uma alegria eufórica, quase fora de controle.
Tem uma parte escura, sombria, muito dramática.
Parece preparação para a cena mais importante de algum filme.
E no final, algo que soa como uma improvisação — livre e vistoso.
Tudo isso numa única peça pequena, despretensiosa, que ele deixou inacabada.
A Pour Elise contém toda a história da música dentro de si mesma.
É por isso que ela sobreviveu a tudo.
E é por isso que ela resume, quase que sozinha, o que o piano é capaz de fazer.
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Quando a prática não leva à perfeição
Nesse fim de semana eu e a Sarah estávamos andando pelas ruas de Bucareste e nos deparamos com um senhor que toca violino na rua.
Esse senhor está tocando violino ali há muito tempo.
Viemos para a Romênia no final de 2018, e ele já tocava na rua desde então. Provavelmente toca há ainda mais tempo do que isso.
O mais incrível é que ele toca sempre as mesmas músicas. Em torno de 4 ou 5 peças. Ele as repete por uma tarde inteira, ou um dia inteiro. Não faço ideia porque não fico ali ouvindo.
O problema é que ele toca muito mal.
É péssimo.
Desafinado demais, erra constantemente nos mesmos trechos. Não sei quem tem paciência de ouvi-lo. Se esse homem dependesse disso para viver, provavelmente não estaria mais entre nós.
Mas aí está o paradoxo:
Ele repete as mesmas músicas, exatamente as mesmas, por horas a fio, há anos, e toca mal.
O pior é que essa situação é muito comum entre estudantes de piano. Gente que toca há um tempão e que, na verdade, simplesmente cristalizou erros e vícios. Toca há anos, mas nunca aprendeu realmente a sair daquilo.
Quando alguém chega para mim e diz que já toca há muito tempo, infelizmente a figura desse senhor passa pela minha cabeça.
Porque não adianta tocar há muito tempo.
É preciso saber estudar.
Você pode ficar anos repetindo errado. A repetição sem estratégia não corrige nada. Só consolida a falha.
Para sair desse ciclo, você precisa de algo que o senhor do violino nunca teve: estratégia de estudo. Coragem para parar em um trecho difícil e não passar por cima dele. Paciência para estudar devagar o suficiente para enxergar onde está errando. E depois corrigir de verdade.
Tudo isso precisa de orientação cuidadosa.
Aí sim você evolui. E sente o que realmente importa: a alegria de fazer música. O sentimento de que está conseguindo, de que está se emocionando e assim podendo emocionar outras pessoas.
Se quiser começar com essa orientação desde o primeiro dia:
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O saco de pancada moderno
Todo mundo gosta de falar mal do livro Hanon — O Pianista Virtuoso.
Ele virou um verdadeiro saco de pancadas de todo professor moderno.
Sim, ele é um livro que trabalha a parte mecânica. Sim, é de forma dura e não musical. Sim, ele não é algo agradável de ouvir para quem está de fora.
Só que não é justo o que esse guerreiro está sofrendo.
A ideia de separar o treinamento mecânico na nossa prática vem sendo aplicada desde o século XIX e formou pianistas gigantes. Eu sempre tirei muito proveito do Hanon e sempre vi os alunos darem um enorme salto evolutivo depois de uma boa dose do nosso bode expiatório preferido.
Vocês sabiam que no Conservatório de Moscou, durante o período de formação do Rachmaninoff, o livro do Hanon era o principal trabalho técnico feito pelos pianistas? Quem chegasse no dia da prova e falhasse em tocar um exercício do Hanon, escolhido na hora, era reprovado automaticamente e não chegava nem a apresentar a música que tinha preparado.
Rachmaninoff, o pianista mais aclamado da história pelos próprios pianistas mais aclamados da história, foi formado tomando banho de Hanon dia e noite.
Lembro de uma vez, nos meus vinte anos, que substituí um professor russo, um grande pianista, durante algumas semanas para orientar seus alunos em Nova York. Naquela época eu tinha a posição de que não devemos praticar as coisas mecanicamente, e instruí os alunos a praticarem apenas exercícios extremamente musicais.
Quando o professor voltou de viagem e soube o que eu havia dito para os alunos, ele simplesmente riu.
Piano tem uma parte física que não se pode desconsiderar, e a maioria dos grandes pianistas a praticaram isoladamente.
Não adianta chorar.
Se você quer construir essa base desde o início, com método e orientação:
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Você não está ouvindo!
Durante o meu mestrado, estudei com uma professora russa.
Ela era brava e doce ao mesmo tempo, e costumava sempre me dizer algo que me deixava completamente confuso:
“Você não está ouvindo.”
Como assim não estou ouvindo? Eu não sou surdo.
A sala era pequena. O piano era de cauda. O som daquele instrumento naquele ambiente era uma verdadeira bomba. Como ela podia me dizer que eu não estava ouvindo?
Mas eu não estava ouvindo mesmo.
Eu não estava realmente presente em cada nota, nem à função que ela cumpria dentro da frase.
Estava passando pelas notas no sentido mais mecânico da palavra. Os dedos chegavam no lugar certo, as notas saíam, a peça avançava. Mas não havia intenção clara em nenhum momento.
Era como falar uma frase inteira no mesmo tom de voz, sem entonação, sem direção, sem nenhuma palavra mais importante do que outra.
Pense em como você diz “eu te amo” para alguém. Ou “preciso te contar uma coisa”. Cada palavra carrega um peso diferente, uma inflexão diferente, uma velocidade diferente. Você não pensa nisso conscientemente. Mas está lá, e quem ouve sente.
Na música acontece a mesma coisa. Cada nota tem a função de uma palavra dentro de uma frase. E cada uma precisa chegar com a entonação certa para que a frase faça sentido expressivo. Quando isso não acontece, a música soa como uma leitura em voz alta de alguém que ainda não entendeu o que está lendo.
Isso é um problema fundamental na arte de performance: atenção.
Porque as coisas passam no decorrer do tempo e manter-se atento e presente em tudo é o grande desafio.
Tocar e ouvir o que se toca são duas coisas diferentes. É possível mover os dedos com competência e, ao mesmo tempo, não estar presente no som que se produz. A cabeça vai à frente, já pensando na próxima passagem, e o som que acabou de sair fica para trás, sem ninguém para ouvi-lo.
Treinar essa escuta é um hábito separado. Exige tocar mais devagar do que o confortável para conseguir ouvir cada nota antes de partir para a próxima. Exige parar no meio de uma frase e perguntar: esse som foi o que eu queria? Fez sentido com o que veio antes?
A professora continuou me interrompendo por meses.
Hoje quem repete isso toda hora sou eu mesmo para os alunos.
Para aprender a tocar trabalhando a sua atenção desde a primeira aula:
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O erro que você comete antes de errar
Existe um erro que acontece antes do erro:
A certeza de que vai errar.
Você se aproxima daquele pedacinho difícil e o caldo começa a entornar.
O corpo tensiona. A respiração prende um pouco. Os ombros sobem. Você já sabe que ali “o bicho pega”, e essa expectativa, sozinha, já te prepara para o desastre.
E aí, claro, você erra.
E pensa: “Sabia.”
Mas o que aconteceu foi o seguinte: a antecipação do erro já foi, ela mesma, o problema. Você errou em parte por causa do estado em que chegou àquele trecho.
Existem muitos meios para evitar esse tipo de coisa. Meios concretos. Porque não adianta nada dizer “tente relaxar” ou “acredite em você”.
Vou passar aqui um desses meios.
São três passos:
O primeiro é começar cada sessão de estudo exatamente por aquela passagem.
Não pela peça toda. Não pelos compassos anteriores como aquecimento. Por ela, do zero, lentíssimo, sem erro nenhum.
Uma nota a cada “meia hora”, se for preciso!
Ao começar por ela, fresco, mandamos um recado diferente ao sistema nervoso: isso não é um obstáculo no final do caminho, é o ponto de partida.
O segundo passo é estudá-la a partir de pontos diferentes dentro dela.
Não pratique sempre do mesmo ponto de início. Comece do meio. Comece da última nota. Comece do terceiro tempo. Quando você só sabe chegar naquela passagem pela estrada de sempre, qualquer pequeno desvio a derruba. Quando você sabe entrar nela de qualquer ponto, ela vira território familiar em vez de armadilha.
O terceiro passo é reinseri-la na peça, mas numa velocidade em que ela não cause nenhuma tensão.
Mais uma vez, uma nota a cada “meia hora”, se for preciso.
O problema muitas vezes não é técnico: é que o corpo aprendeu que ali é o lugar do perigo. Precisa desaprender isso tocando aquela passagem dentro da música, várias vezes, em condições de total controle.
Quando isso acontece, a passagem deixa de habitar seus pesadelos.
E o erro que vinha antes do erro para de existir.
Para aprender a estudar dessa forma desde o início:
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Aprender a tocar dormindo
Todo mundo sabe que para melhorar ao piano é preciso estudar (espero que saiba!).
Não só fazer aula. Mas estudar sozinho.
Minha mãe sempre me lembrava:
“Uma coisa é estudar piano, outra é fazer aula. Quem só faz aula não está estudando nada.”
Isso tudo é ótimo e verdadeiro.
Mas tem uma outra coisa que é preciso fazer para aprender piano e que nem sempre se faz direito.
Qual será?
Dormir!
Eu me lembro uma vez, antes de tocar com uma orquestra brasileira, o regente, no camarim, mais ou menos uma hora antes de começar o concerto, me aconselhou a tentar dar um cochilo rápido.
Achei aquilo uma coisa meio surrealista, porque eu já estava com a adrenalina a mil. Como é que iria conseguir dormir?
Pois ele disse que depois de dormir um pouco a nossa energia aumenta e tudo funciona melhor.
Bingo! Certíssimo!
Hoje me deparei com um estudo canadense de 2014 que comprova que, especialmente para atividades que exigem um aprendizado de movimentos coordenados, que envolvem a memória motora, o sono ativa e protege uma rede de conexões cerebrais que organiza tudo o que foi treinado durante a vigília.
Ou seja, durante o sono o cérebro continua organizando o que foi praticado e quando você acorda, as coisas progrediram.
O estudo fez as pessoas moverem os dedos como se estivessem tocando piano sobre uma caixa antes e depois de uma noite de sono e comparou com pessoas que repetiram a atividade horas mais tarde, sem uma noite de sono entre os dois testes.
Foi provado e medido no cérebro o que o sono fez e o quanto, todos que dormiram bem progrediram mais do que quem não dormiu.
Agora, sabendo disso, não vá também achando que dá pra estudar 10 minutos e dormir 12 horas que o milagre acontece.
Mas saiba que muitas vezes não é correto ficar insistindo em algo que não está saindo depois de um tempo adequado de prática atenta e concentrada.
O que você precisa é de uma boa noite de sono.
Agora, enquanto está acordado, para começar a tocar piano sob a minha orientação:
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Ronaldinho Gaúcho, a cruz e o piano
Ontem eu assisti um capítulo da série que a Netflix fez sobre o Ronaldinho Gaúcho.
Apesar de não ser alguém que acompanha futebol, esse jogador sempre me chamou a atenção — como acredito que chama a atenção de qualquer pessoa que o tenha visto jogar pelo menos uma vez. É uma tamanha alegria, uma tamanha intimidade com a atividade, que a gente fica hipnotizado olhando. Parece uma visão de alguém que saiu da condição humana para a condição angélica.
Mas houve um momento em especial que me chamou muito a atenção na série:
Ele assistia jogos da NBA. Não porque gostava especialmente de basquete. Ele assistia aquilo para pegar ideias e trazê-las para o futebol.
Para aprender mais sobre a sua própria arte, ele era obrigado a sair dela.
Chamo de arte o que ele fazia, porque de fato é. E digo então que o aprendizado de uma arte é em forma de cruz. Acompanhe esse raciocínio comigo por um instante.
No início, é preciso sair do zero e subir de nível. Há muito o que entender e evoluir dentro daquela arte. É momento de praticar, repetir, mergulhar. No caso do piano, é preciso passar tempo ao instrumento, ouvir pianistas, se banhar daquele mundo e permanecer ali durante um bom tempo.
Assim conseguimos escalar os primeiros degraus.
Mas não demora muito e nos deparamos com um obstáculo que parece impossível de superar. Travamos. Parece que não há mais possibilidade de subida nessa linha vertical.
É então a hora de olhar para os lados. De crescer horizontalmente.
O estudante de piano deve ouvir música para outros instrumentos, cantores, orquestras, outros estilos. Deve observar como músicos que não são pianistas tocam. Deve ter contato com literatura, pintura, dança, teatro. Deve ampliar o escopo do que percebe, do que sente, do que imagina.
E então, ao voltar para o piano, algo se encaixa. Aquele degrau que parecia impossível finalmente fica para trás.
É assim que o ciclo se fecha. É assim que se desenha a cruz. E uma vez conscientes disso, o processo de aprender deixa de ser uma briga e vira um caminho.
Se você ainda está perdido sobre por onde começar esse caminho e precisa de um guia, esse é o início que te indico:
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O piano ama as tartarugas
Existe uma coisa que todo mundo sabe que precisa fazer ao piano e quase ninguém suporta fazer de verdade.
Estudar devagar.
O conselho todo mundo conhece. O problema é que o tempo lento exige uma paciência que a maioria das pessoas simplesmente não tem.
Ficar ali, nota por nota, num andamento que parece de tartaruga, sem a sensação de que a música está “saindo”, sem aquela satisfação imediata de ouvir a peça acontecer, é mentalmente exaustivo (algumas pessoas até caem no sono ao piano).
O ego também entra em jogo, claro.
O andamento lento parece uma confissão de que você não consegue.
Então você acelera antes da hora, erra, volta um pouco, insiste, “saiu mais ou menos”, e sai correndo para o próximo trecho, bola pra frente.
Uma vez, chegando para uma visita ao Sergei Rachmaninoff, um pianista chamado Abram Chasins ficou parado do lado de fora da porta, escutando.
Havia alguém praticando o “Estudo em terças” de Chopin, uma das peças mais difíceis do repertório, num andamento tão lento que demorou um bom tempo para reconhecer a peça.
Uma nota a cada vários segundos!
Chasins ficou ali parado, esperando por quase uma hora. Quando a porta finalmente se abriu, não havia nenhum aluno. Era o próprio Rachmaninoff.
Vinte segundos por compasso!
Quase uma hora nesse pique.
O maior pianista de todos os tempos praticando como se estivesse aprendendo a ler.
Quando você estuda devagar, consegue perceber tudo o que está acontecendo: onde o dedo escorrega, onde a mão tensiona sem necessidade, onde o ritmo varia sem que você note.
Você enxerga o problema com precisão, em vez de passar por cima dele toda vez.
Aí sim consegue corrigir, em vez de praticar o erro e consolidá-lo.
O paradoxo é que quem tem paciência para praticar devagar aprende a peça mais rápido.
A aluna de Rachmaninoff, Ruth Slenczynska,que faleceu mês passado aos 101 anos, avançava o metrônomo de grau por grau. E mesmo depois de dominar a peça, voltava ao andamento lento regularmente, porque sempre encontrava algo novo para consertar.
O piano ama as tartarugas e geralmente esnoba as lebres.
Se quiser começar assim, desde o início, veja o que preparei para você:
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Uma massagem balinesa
Ontem fui fazer uma massagem aqui em Bucareste.
Fazia muito tempo que não ia a um massagista profissional e estava precisando de um momento como esse.
Cheguei no local, uma casa de massagem balinesa. Decoração típica e muito bonita, música oriental bem suave, um perfume bem leve e refrescante no ar. Fui entrando no clima.
Quando deitei para fazer a massagem, foi tocado um sininho cuja vibração já nos coloca em um estado diferente.
A moça que me massageou parecia ter a força do Arnold Schwarzenegger em seus dias de glória.
Mas foi realmente muito relaxante, revigorante. Maravilha! Era isso que eu precisava!
Saí da mesa de massagem realmente flutuando.
Me vesti e fui descer as escadas até a recepção para pagar pela sessão excelente de massagem que acabei de ter. Estava tão tranquilo, descendo aquelas escadas, com a cabeça nas nuvens.
Não olhei para o chão e acabei pisando em algo um pouco escorregadio… Pronto!
Perdi o pé de apoio e desci a escada de bunda uns três ou quatro degraus.
Cheguei até a recepção todo dolorido do tombo que tomei no segundo anterior depois de uma hora e meia de massagem balinesa.
Tá doendo até agora.
Mas por que eu estou contando essa história patética?
Preparando peças ao piano, a gente quase sempre começa pelo começo. Faz sentido, né? Mas o começo acaba sendo o mais lapidado, o meio vai ficando para trás, e o final a gente deixa sempre para depois.
À medida que avançamos, o ouvinte pode facilmente perceber que o meio já não está tão bom quanto o começo. Quando chega no final a gente consegue confirmar ao ouvinte que a gente de fato não sabe a peça e que está longe de estar pronta.
Errar no final é o pior que você pode fazer. Errar no início te permite seguir e recuperar a linha da peça nos compassos seguintes.
Mas errar no final… errar no último acorde, por exemplo… Não deixe isso acontecer, pelo amor de Deus.
Não termine a sua peça de nádegas ao solo e perdendo todo o trabalho que foi feito antes, por favor!
Para aprender como organizar seu estudo e evitar esse drama já desde a primeira aula:
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Praticar mais não resolve
Tem uma cena que se repete na vida de todo aluno de piano.
Ele senta sozinho para estudar. Tem um trecho que não está saindo. Então faz o que parece óbvio:
Repete.
Cinco vezes.
Dez vezes.
Vinte vezes.
Às vezes sai, às vezes não. Mas ele continua, porque a lógica parece sólida, repetir até acertar.
Na semana seguinte, o mesmo trecho trava no mesmo lugar.
A sensação é conhecida:
“Estudei a semana inteira. Não adianta nada. Conclusão óbvia:
Não tenho talento!”
Mas o problema não é o talento, filho.
É o que você está chamando de estudar!
Tocar o trecho várias vezes esperando um milagre, isso não é estudo.
O erro fica registrado junto com tudo o mais, e na próxima vez o seu corpo repete exatamente o que aprendeu, a versão errada.
O verdadeiro estudo começa com investigação.
Você deve se perguntar: Onde, exatamente, está o problema? É a mão esquerda? Toca só ela e vê. É a direita? Faz o mesmo. É só quando junta? Então o problema está na coordenação, não nas notas.
Quando você encontra o ponto exato onde a dá o chabu, aí começa o trabalho de fato:
Tocar aquele trecho mais devagar do que uma corrida de bicho preguiça, lento o suficiente para não errar nenhuma nota, nenhum ritmo. Repetir assim duzentas vezes.
Não até acertar.
Duzentas vezes certo.
Repetir errado é praticar o erro. Repetir certo, lentamente, é criar um hábito novo, e é o único jeito de o seu corpo aprender de fato.
O problema é que isso exige saber investigar. Saber isolar. Saber o que procurar antes de sentar ao piano.
E isso raramente alguém ensina.
Se você quer aprender a estudar assim, do primeiro dia:
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